O teu valor não pode depender dos olhos de quem te vê.

Publicado em 11 de setembro de 2026 às 18:10

Há dias em que alguém nos diz uma coisa bonita e parece que caminhamos um pouco mais leves. Sentimo-nos reconhecidas, valorizadas, vistas. Depois chega outra pessoa, num outro momento, com palavras capazes de tocar precisamente naquele lugar onde ainda existem inseguranças, e aquilo que parecia tão sólido dentro de nós começa a vacilar.


É estranho pensarmos na quantidade de poder que podemos entregar aos olhos dos outros.

Uma pessoa elogia-nos e sentimo-nos incríveis. Outra critica-nos e começamos a questionar se somos realmente tudo aquilo que julgavamos ser. Alguém escolhe ficar e sentimo-nos importantes. Alguém decide partir e perguntamo-nos onde falhamos. Recebemos reconhecimento e crescemos alguns centímetros por dentro; somos ignoradas e, de repente, parece que encolhemos.

O erro em construirmos o nosso valor a partir daquilo que vem de fora é precisamente a instabilidade desse lugar.

As pessoas, as relações mudam e as opiniões mudam. Aquilo que alguém admira em nós pode ser exatamente aquilo que outra pessoa não compreende.

Podemos entrar numa sala e encontrar quem se encante com a nossa forma de ser e, algumas horas depois, encontrar alguém para quem somos demasiado intensas, demasiado reservadas, demasiado ambiciosas, demasiado emocionais, demasiado isto ou pouco aquilo.

Se entregarmos a cada pessoa o poder de decidir quanto valemos, passaremos a vida emocionalmente dependentes da avaliação de quem estiver diante de nós.
E isso é demasiado poder para entregar a alguém.

Claro que aquilo que recebemos dos outros nos toca. Somos humanas. Um elogio pode aquecer-nos o coração e uma palavra cruel pode acompanhar-nos durante muito mais tempo do que gostaríamos. Não temos de fingir uma indiferença que não sentimos para provar que temos amor-próprio.

Podemos ficar felizes quando alguém reconhece alguma coisa bonita em nós.
Podemos ficar magoadas quando alguém nos fere. A diferença está em não transformar nenhuma dessas experiências numa definição de quem somos.

Uma pessoa pode amar-te profundamente e isso não acrescenta valor à tua existência. Pode ajudar-te a reconhecê-lo, celebrá-lo contigo, recordar-te dele nos dias em que te esqueces, mas aquilo que existe em ti já estava lá antes de essa pessoa chegar.

Da mesma forma, alguém pode rejeitar-te, desvalorizar-te, não reconhecer aquilo que ofereceste ou até tentar convencer-te de que és menos do que és. Essa experiência pode deixar marcas, pode obrigar-te a reconstruir lugares importantes dentro de ti, mas não tem autoridade para determinar o teu valor.

Deixamos de precisar de convencer todas as pessoas da nossa bondade, da nossa competência, da nossa beleza, das nossas intenções ou daquilo que somos capazes de oferecer. Algumas vão perceber-nos. Outras não. Algumas ficarão tempo suficiente para conhecer aquilo que existe para além da superfície. Outras construirão uma ideia sobre nós a partir de meia dúzia de momentos e seguirão caminho.

Não conseguimos controlar os olhos através dos quais somos vistas, contudo, podemos cuidar dos olhos através dos quais nos vemos.

E essa relação merece muito mais atenção do que aquela que tantas vezes lhe damos, porque somos nós que permanecemos quando os aplausos acabam, quando alguém muda de opinião, quando uma relação termina, quando o reconhecimento não chega ou quando atravessamos uma fase em que ninguém parece reparar no esforço que estamos a fazer.
É nesses momentos que precisamos de ter alguma coisa dentro de nós que não desapareça juntamente com a validação exterior.

Uma consciência tranquila sobre quem somos. Sobre aquilo que procuramos melhorar, as vezes em que errámos e tivemos humildade para reconhecer.

Sobre aquilo que já superamos, os valores que escolhemos preservar quando ninguém estava a olhar e sobretudo sobre a mulher que estamos a construir todos os dias, muito para além daquilo que alguém possa dizer sobre ela.

O reconhecimento dos outros é bonito. O carinho é importante. Os elogios sabem bem e existem palavras que chegam exactamente quando precisamos delas. Não precisamos de diminuir a importância das relações humanas para aprendermos a reconhecer o nosso próprio valor.

Precisamos apenas não lhes entregar a responsabilidade de o criar.

Aquilo que vem de fora será sempre instável. Hoje alguém pode aplaudir-te e amanhã discordar de ti. Alguém pode escolher-te e, mais tarde, escolher outro caminho. Uma pessoa pode ferir-te, outra pode elogiar-te, e nenhuma dessas coisas tem poder suficiente para determinar realmente o teu valor.

Que aquilo que os outros te oferecem possa tocar-te sem passar a definir-te.
E que, entre todas as vozes que encontrarás ao longo da vida, a tua nunca seja aquela que mais te diminui.

Bárbara Pereira

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