Os bastidores da paz. Vamos desmistificar o que significa 'estar em paz' ?

Publicado em 11 de setembro de 2026 às 18:09

Há pessoas que olham para alguém tranquilo e perguntam:

“Como é que consegues ser tão calma?”
“Como é que manténs essa serenidade?”



É fácil olhar para a paz de alguém quando a encontramos já construída. O que raramente vemos são os bastidores dessa paz. Não vemos aquilo que essa pessoa precisou de conhecer dentro de si para aprender a protegê-la. Não conhecemos as vezes em que respondeu movida pela ansiedade, tomou decisões no meio do medo, perdeu a paciência, deixou o stress falar mais alto ou descobriu uma versão de si própria que não gostaria de voltar a encontrar.

A paz nem sempre é uma característica de personalidade. Há pessoas que são calmas precisamente porque conhecem muito bem o seu oposto. Eu conheço o meu. Conheço a minha impaciência. Conheço a irritação, o stress, a ansiedade e aquele lugar interior onde os pensamentos começam a correr mais depressa do que eu consigo acompanhá-los. Conheço a versão de mim que aparece quando estou emocionalmente sobrecarregada e sei que as escolhas que faço a partir desse lugar não são necessariamente as mesmas que faria depois de recuperar a serenidade.

E é precisamente por conhecer esse lado que cuido tanto da minha paz. Não a trato como uma coisa bonita que aconteceu na minha vida. Trato-a como uma construção que me custou tempo, consciência, erros, aprendizagem e muitas conversas comigo própria.

Há uma ideia bonita associada às pessoas serenas, como se algumas tivessem simplesmente nascido com uma capacidade especial para não se deixarem perturbar. Olhamos para aquilo que mostram hoje sem imaginar aquilo que precisaram de atravessar para chegar ali.
Só que ninguém vê todas as vezes em que tivemos de aprender a não responder imediatamente.

Ninguém vê as mensagens que decidimos não enviar enquanto estávamos zangadas.
As decisões que adiamos algumas horas porque sabíamos que o medo estava dentro de nós.

As vezes em que precisamos de sair, respirar, ficar em silêncio ou afastar-nos durante algum tempo para conseguirmos perceber o que realmente sentíamos.

Ninguém vê a quantidade de trabalho interior que pode existir por detrás de uma pessoa que hoje escolhe a calma. E também existe um lado menos bonito sobre o qual raramente falamos: até as pessoas mais tranquilas têm limites.

A serenidade não elimina a nossa escuridão. Podemos ter feito um caminho enorme de autoconhecimento e continuar a ter lugares dentro de nós onde vivem a raiva, a ansiedade, o medo, a impaciência e tudo aquilo que preferimos não deixar conduzir a nossa vida.

Conhecermo-nos profundamente também passa por conhecermos esses lugares.

Eu não quero fingir que eles não existem. Quero saber reconhecê-los quando aparecem. Quero perceber quando já não estou a decidir com clareza, quando estou cansada demais para interpretar uma situação com equilíbrio, quando a ansiedade está a transformar possibilidades em ameaças ou quando a irritação está prestes a colocar palavras na minha boca que provavelmente não escolheria algumas horas depois.

É aí que proteger a paz deixa de ser apenas uma ideia bonita e passa a ser uma responsabilidade comigo. As decisões mudam consoante o lugar interior de onde as tomamos.

Uma decisão tomada no auge da ansiedade pode querer apenas acabar rapidamente com a incerteza. O medo pode escolher aquilo que parece mais seguro, mesmo quando já não nos faz bem. A raiva pode querer resolver em cinco minutos aquilo que precisava de uma conversa mais consciente. O stress pode fazer parecer urgente aquilo que poderia perfeitamente esperar até amanhã.

E é por isso que, sempre que posso, tento não entregar decisões importantes à versão de mim que está no meio da tempestade. Prefiro esperar até conseguir ouvir-me novamente. Até conseguir separar aquilo que aconteceu daquilo que estou a imaginar. Até o coração desacelerar um pouco e a cabeça deixar de procurar respostas apenas para se libertar do desconforto de ainda não as ter.

Foi assim que comecei a perceber que preservar a paz não significa evitar tudo aquilo que nos perturba. A vida nunca nos dará essa possibilidade. Significa conhecer suficientemente bem aquilo que acontece dentro de nós para perceber quando precisamos de regressar ao nosso centro antes de escolher o próximo passo.

Por isso, quando alguém me pergunta como é que uma pessoa consegue preservar tanto a sua paz, penso sempre que existe uma parte da resposta que os outros nunca poderão ver.

Os bastidores.

Tudo aquilo que aconteceu antes da serenidade. As vezes em que não fomos serenas. As decisões que nos ensinaram aquilo que não queríamos repetir. Os limites que descobrimos depois de os ultrapassarmos. A escuridão que tivemos coragem de conhecer para deixar de ter medo de encontrá-la.

Eu cuido da minha paz porque conheço a mulher que sou quando estou em paz. Mas sobretudo, porque conheço a mulher que posso ser quando me afasto demasiado dela.

E entre as duas aprendi uma coisa que tento levar comigo sempre que a vida me pede uma decisão importante: quando não sou obrigada a decidir no meio da tempestade, prefiro esperar pelo lugar dentro de mim onde consigo voltar a ver com clareza.

A paz que hoje protejo não me foi oferecida, foi construída. E talvez ninguém cuide com tanta força da própria luz como quem já conheceu suficientemente bem a sua escuridão.

Bárbara Pereira 

 

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