Nem todas as manhãs nos encontram com vontade de conquistar o mundo. Existem dias em que abrimos os olhos e o corpo parece continuar a pedir silêncio, a cabeça demora a acompanhar o relógio e aquela energia que habitualmente reconhecemos em nós parece ter-se escondido algures durante a noite. Rapidamente começamos a procurar uma explicação. O que se passa comigo? O que está errado? De onde vem este peso? Como se acordar sem vontade, sem entusiasmo ou simplesmente mais cansadas tivesse obrigatoriamente de revelar alguma coisa grave sobre a nossa vida.
Hoje penso que, em muitos desses dias, a explicação pode ser bem mais simples. Podemos estar cansadas de nos exigir tanto. De querer responder a tudo, cuidar de tudo, antecipar tudo, resolver num único dia aquilo que foi chegando ao longo de semanas. Podemos estar a carregar preocupações que já não precisam das nossas mãos, responsabilidades que podiam ser divididas, expectativas que nós próprias fomos colocando sobre os ombros e aquela ideia silenciosa de que descansar só é legítimo depois de termos sido suficientemente produtivas.
Também eu tenho dias em que acordo sem energia. E já não quero olhar para eles como se fossem uma falha no meu caminho, uma quebra na minha vibração ou um sinal de que alguma coisa em mim deixou de estar bem. A minha energia continua forte dentro do peito, só não está sempre disponível da mesma forma.
Existem manhãs em que a sinto expansiva, criativa, quase impossível de conter, e outras em que a encontro mais recolhida, como uma chama pequena que continua acesa sem precisar de iluminar a minha vida inteira.
Gosto de pensar nesse recolhimento sem lhe atribuir imediatamente um problema. Trabalho com energia, acredito profundamente nela, e seria contraditório acreditar na sua circulação, transformação e movimento e depois exigir que a minha permanecesse sempre no mesmo ponto. Até aquilo que brilha precisa de momentos em que deixa de se mostrar tanto. Não perdeu a luz, está simplesmente a guardá-la.
Nesses dias, procuro perguntar menos “o que é que tenho?” e escutar um pouco mais aquilo de que preciso. Pode ser descanso ou silêncio. Pode ser uma manhã sem obrigações inventadas. Pode ser desligar o telemóvel, beber um café devagar, deixar uma tarefa para amanhã ou admitir que hoje não tenho a mesma capacidade que tive ontem. E isso não diminui a mulher que sou nos dias em que consigo fazer vinte coisas antes do almoço.
Também tenho aprendido a distinguir aquilo que realmente precisa de mim daquilo que apenas se habituou a ter-me disponível. Nem tudo precisa de ser resolvido hoje. Nem todas as preocupações merecem horas da minha energia. Algumas coisas continuam perfeitamente no mesmo lugar depois de dormirmos uma noite sobre elas e, curiosamente, o mundo sobrevive quando decidimos não o carregar às costas durante algumas horas.
Quero normalizar esses dias. Sem lhes colocar imediatamente um diagnóstico, uma explicação espiritual ou uma história pesada por cima. Um dia com pouca energia pode ser simplesmente um dia com pouca energia. Amanhã o corpo pode acordar diferente, a cabeça mais leve, a vontade regressar e aquela parte de nós que hoje pediu recolhimento voltar naturalmente a procurar o mundo. Por isso, se hoje acordaste assim, não te obrigues a brilhar só para provares que a tua luz continua lá. Ela sabe onde está. Hoje pode simplesmente precisar de descansar contigo.
Bárbara Pereira
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