Tenho pensado muito na forma como nos estamos a afastar uns dos outros. Falta-nos proximidade, falta-nos empatia, falta-nos o abraço, a disponibilidade para escutar, a capacidade de estarmos verdadeiramente presentes uns com os outros. Vivemos rodeados de pessoas e, ainda assim, podemos passar dias inteiros sem sentir uma ligação verdadeiramente humana.
E, curiosamente, ao mesmo tempo que sinto falta dessa proximidade, tenho sentido cada vez mais necessidade de silêncio.
Tenho dificuldade em permanecer durante muito tempo em lugares com demasiado ruído, demasiadas pessoas, demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo.
Grandes centros comerciais, multidões, música muito alta, vozes sobrepostas, movimento constante. Há ambientes onde começo a perceber em mim uma impaciência que normalmente não tenho. Fico mais irritável, menos tolerante, com uma vontade quase imediata de sair dali e procurar um lugar onde consiga voltar a ouvir os meus próprios pensamentos.
Durante algum tempo perguntei-me se isto seria apenas uma característica minha.
Se estaria a tornar-me menos tolerante, menos sociável ou simplesmente mais habituada ao silêncio. Mas comecei também a fazer outra pergunta: quanto é que os lugares onde estamos influenciam a forma como nos sentimos?
Há muitos anos, durante um dos meus níveis de Reiki, a minha mestra disse uma coisa de que me voltei a recordar recentemente. Antes de entrarmos ou permanecermos em determinado ambiente, podíamos perguntar-nos:
“Se eu tivesse um bebé, levá-lo-ia para este lugar?”
Na altura achei interessante. Hoje compreendo esta pergunta de outra forma.
Quando pensamos num bebé, existe quase automaticamente uma preocupação com aquilo a que o vamos expor. Pensamos no ruído, na confusão, nas pessoas, na segurança, no ambiente, naquilo que poderá assustá-lo ou deixá-lo desconfortável. Queremos protegê-lo de estímulos excessivos e proporcionar-lhe lugares onde possa sentir-se tranquilo.
Curiosamente, crescemos e deixamos muitas vezes de fazer essas perguntas sobre nós próprias.
Entramos em todo o lado. Permanecemos em ambientes onde o nosso corpo parece estar constantemente em alerta. Suportamos ruído, confusão, tensão, pressa, conversas agressivas, excesso de estímulos e uma quantidade enorme de informação sem sequer repararmos no impacto que tudo isso vai tendo na nossa forma de estar.
E depois estranhamos quando estamos irritáveis. Quando perdemos a paciência mais facilmente. Quando chegamos a casa cansadas sem termos feito aparentemente nada que justificasse tamanho cansaço.
Quando precisamos de silêncio como quem precisa de água. Não acredito que isto signifique que devemos fugir do mundo e viver isoladas numa montanha, embora confesse que há dias em que a ideia não parece assim tão má.
Precisamos uns dos outros.
Precisamos de convívio, de encontros, de pessoas, de conversas, de experiências partilhadas. Continuo a acreditar profundamente que uma das grandes feridas do nosso tempo é precisamente o afastamento humano e a dificuldade crescente em criarmos relações onde exista verdadeira presença. Mas estar perto das pessoas não significa termos de estar permanentemente expostas ao ruído do mundo.
É importante aprender a discernir entre conexão e excesso de estímulo.
Podemos adorar pessoas e precisar de silêncio.
Podemos desejar união e não gostar de multidões.
Podemos sentir falta de abraços e, ao mesmo tempo, precisar de chegar a casa, fechar a porta e passar algum tempo sem ouvir absolutamente ninguém. Uma coisa não invalida a outra.
Tenho começado a reparar mais na mulher que sou em cada lugar.
Há espaços onde a minha respiração parece ficar naturalmente mais tranquila. Onde penso com maior clareza, tenho mais paciência, sinto mais disponibilidade para conversar e até me reconheço melhor. E existem outros onde parece acontecer precisamente o contrário.
Isso fez-me perceber que cuidar de nós também pode passar por escolher com maior consciência os lugares onde colocamos o nosso corpo, a nossa atenção e a nossa energia.
Não conseguiremos escolher todos.
Há lugares onde precisamos de estar, cidades que precisamos de atravessar, compromissos que precisamos de cumprir e ambientes que não foram construídos à medida da nossa serenidade. Ainda assim, podemos observar aquilo que acontece connosco.
Podemos perceber quando precisamos de sair um pouco, respirar, procurar silêncio, caminhar na natureza, chegar a casa e diminuir os estímulos, desligar o telemóvel durante algum tempo ou simplesmente ficar connosco até sentirmos novamente que regressámos ao nosso lugar interior.
Na psicologia podemos falar de estímulos, sobrecarga e da forma como o nosso sistema responde ao ambiente. Na espiritualidade podemos falar da energia dos lugares e daquilo que sentimos quando entramos neles. Eu não sinto necessidade de escolher apenas uma dessas linguagens para compreender aquilo que vivo. Interessa-me sobretudo aprender a escutar.
O corpo avisa, a mente avisa e as emoções avisam. E aquilo a que chamamos energia, para quem sente o mundo também dessa forma, avisa igualmente.
Talvez tenhamos aprendido demasiado bem a perguntar se conseguimos suportar determinado ambiente e demasiado pouco a perguntar como ficamos depois de passar por ele. Por isso, aquela pergunta antiga voltou a fazer sentido para mim.
“Se eu tivesse um bebé, levá-lo-ia para este lugar?”
E hoje acrescentaria outra:
Se tenho tanto cuidado com aquilo a que exporia alguém que quero proteger, porque não haveria de ter esse mesmo cuidado comigo?
Há lugares onde precisamos de entrar.
E há outros que podemos simplesmente escolher não frequentar. Não por rejeitarmos o mundo ou as pessoas.
Apenas porque também existe amor-próprio na escolha dos lugares onde a nossa paz consegue respirar.
Bárbara Pereira
Deixa a tua estrela e ajuda a iluminar este espaço
Adicionar comentário
Comentários