Nasci numa aldeia pequena de Trás-os-Montes e, como já contei algumas vezes por aqui, quem me acompanha há mais tempo conhece um pouco das minhas raízes e das memórias que trago desse lugar.
Na aldeia havia hábitos que ninguém precisava de ensinar formalmente porque faziam parte da maneira como as pessoas viviam umas com as outras. Cruzávamo-nos com alguém e dizíamos bom dia, boa tarde ou boa noite. Perguntávamos como estava, agradecíamos, respondíamos de nada, desejávamos saúde, demorávamos alguns segundos numa conversa que muitas vezes não tinha assunto nenhum para além daquele encontro.
E fazíamos isso mesmo sem conhecer a pessoa. Não precisavamos de saber o nome, onde morava, de que família vinha ou qual era a sua história para reconhecer a sua presença. Bastava cruzarmo-nos no mesmo caminho para existir aquele pequeno gesto de humanidade entre duas pessoas
.
Claro que a vida mudou.
Seria impossível caminhar por uma cidade, entrar num centro comercial ou chegar a uma praia cheia de gente e cumprimentar todas as pessoas que passam por nós. Provavelmente chegaríamos ao final do dia sem voz e com algumas pessoas a perguntarem quem é aquela mulher tão simpática que decidiu cumprimentar o país inteiro.
Mesmo assim, tenho pensado que talvez tenhamos levado essa impossibilidade um pouco longe demais. Deixamos de cumprimentar também quando seria perfeitamente possível fazê-lo.
Entramos num elevador e olhamos para o telemóvel. Chegamos a um balcão e começamos imediatamente a fazer o pedido. Cruzamo-nos repetidamente com alguém no mesmo prédio, na mesma rua ou no mesmo café e continuamos a passar como se aquela pessoa fosse apenas parte da paisagem. Recebemos alguma coisa e esquecemo-nos do obrigada.
Alguém agradece e quase já estranhamos ouvir um de nada acompanhado por um sorriso.
São segundos. Um bom dia demora segundos. Um olhar demora segundos.
Perguntar a alguém como está demora um pouco mais, principalmente se estivermos verdadeiramente disponíveis para ouvir a resposta, mas continua a ser uma pequena parte do nosso dia.
Recentemente visitei um lugar mais tranquilo, uma vila pequena aqui em Portugal, e encontrei novamente esse hábito que conheço tão bem. As pessoas diziam bom dia, boa tarde, boa noite. Não sabiam quem eu era. Não conheciam a minha história, não sabiam de onde vinha nem para onde ia.
E, ainda assim, cumprimentavam-me.
Achei bonito perceber que, em alguns lugares, esta tradição continua intacta nos corações.
Fez-me recordar a aldeia onde nasci e, ao mesmo tempo, pensar na quantidade de pequenas formas de proximidade que fomos perdendo enquanto o mundo se tornava mais rápido, mais cheio e, curiosamente, também mais solitário.
Nunca sabemos aquilo que existe do outro lado de uma pessoa com quem nos cruzamos. Aquele senhor que encontramos no elevador pode passar grande parte do dia sozinho. A mulher que nos atende pode ter ouvido palavras desagradáveis durante toda a manhã. A pessoa que caminha na nossa direcção pode estar a atravessar uma fase difícil sem que ninguém consiga perceber. E alguém que parece perfeitamente bem pode estar apenas a precisar de sentir, durante alguns segundos, que foi visto.
Não temos de conhecer a história de alguém para lhe oferecer um gesto de gentileza. Também não sabemos o alcance que uma coisa tão pequena pode ter.
Um bom dia não resolve uma solidão. Um sorriso não cura uma dor. Uma palavra gentil não transforma magicamente aquilo que alguém está a atravessar. Acredito, ainda assim, que durante alguns segundos, diz uma coisa profundamente humana:
Eu vi-te.
Vi que estás aqui.
Reconheci a tua presença no meio de tantas pessoas por quem passamos diariamente sem realmente nos encontrarmos.
E acredito que precisamos de recuperar um pouco disso. Não temos de voltar a um tempo que já passou nem de romantizar a vida nas aldeias, porque cada lugar e cada época têm as suas próprias dificuldades. Apenas não podemos permitir que a pressa nos retire gestos que continuam a caber perfeitamente na vida que temos hoje.
Dizer bom dia.
Dizer obrigada.
Responder de nada.
Olhar para quem nos atende.
Sorrir quando os nossos olhos se cruzam com os de alguém. Perguntar como está quando existe tempo e espaço para escutar. Desejar um bom dia e, durante aqueles segundos, desejar realmente que aquela pessoa o tenha.
Pode parecer pouco. Só que nunca sabemos quando o nosso bom dia encontra alguém que estava mesmo a precisar de ser reconhecido no meio do mundo.
E seria bonito se, mesmo vivendo numa sociedade onde já não conseguimos conhecer toda a gente que passa por nós, continuássemos a fazer com que algumas pessoas sentissem que não passaram completamente despercebidas.
A humanidade também cabe numa saudação.
Bárbara Pereira
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