Os momentos mais difíceis da tua vida vais atravessá-los sozinha.

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 17:35

Há uma realidade da vida para a qual ninguém nos prepara verdadeiramente: algumas das fases mais difíceis da nossa história vamos passá-las sozinhas.


Independentemente das pessoas que conhecemos, das amizades que construímos, dos amores que encontramos, da família que temos ou das pessoas que genuinamente gostam de nós, existirão momentos em que a vida nos colocará diante de alguma coisa que será inteiramente nossa para atravessar. Podemos ter pessoas por perto e continuar sozinhas dentro daquilo que estamos a viver, simplesmente porque existem dores onde ninguém consegue entrar, medos que ninguém consegue sentir por nós e decisões cujo peso acaba sempre por repousar nas nossas próprias mãos.

É uma solidão diferente daquela que sentimos quando não temos ninguém. É a solidão inevitável de sermos nós a viver a nossa própria vida.

Ninguém pode entrar dentro do nosso coração quando tudo parece demasiado confuso. Ninguém consegue dormir por nós nas noites em que o pensamento não descansa. Ninguém pode tomar no nosso lugar aquelas decisões que mudam completamente o rumo da nossa história. Ninguém consegue sentir exatamente aquilo que sentimos quando alguma coisa termina, quando perdemos alguém, quando precisamos de começar novamente, quando o futuro deixa de parecer seguro ou quando a vida nos obriga a encontrar um caminho que ainda não sabemos percorrer.

E haverá dias em que ninguém vai perceber verdadeiramente a dimensão daquilo que estamos a carregar.

É por isso que precisamos tanto de aprender a estar do nosso próprio lado.

Ama-te.

Ama-te profundamente, de uma maneira que não dependa apenas daquilo que os outros conseguem dar-te. Ama-te de uma forma que te permita encontrar dentro de ti aquela força bonita onde te agarrar quando tudo à tua volta estiver a mudar. Conhece-te suficientemente para reconheceres os teus limites, as tuas feridas, aquilo que te acalma e aquilo que te devolve ao centro. Constrói uma relação contigo que não desapareça precisamente quando mais precisas dela.

Haverá momentos em que a tua própria força será o lugar onde terás de descansar.

E não falo daquela força quase desumana que nos ensinaram a admirar, como se ser forte significasse nunca cair, nunca chorar, nunca ter medo, nunca precisar de parar. Há momentos em que força será levantar. Noutros será admitir que já não consegues. Haverá dias em que será tomar uma decisão difícil e outros em que será simplesmente sobreviver às próximas horas sem saber ainda o que fazer com o dia seguinte.

Nem sempre vais conseguir. E também precisas de fazer as pazes com isso.

Faz as pazes com tudo aquilo que conseguiste fazer e, sobretudo, com aquilo que não conseguiste. Com as vezes em que foste corajosa e com aquelas em que o medo foi maior. Com as decisões acertadas e com aquelas que hoje sabes que tomarias de outra maneira. Com os caminhos que terminaste e com aqueles que abandonaste a meio. Com os momentos em que encontraste forças imediatamente e com aqueles em que precisaste de muito tempo para voltar a reconhecer-te.

Não transformes a tua história numa lista de coisas que deverias ter feito melhor.

Há uma mulher dentro dela que fez aquilo que conseguiu enquanto atravessava coisas que ninguém conseguia atravessar por ela.

E essa mulher merece o teu orgulho.

Sente orgulho não apenas daquilo que venceste. Sente orgulho daquilo que suportaste enquanto ainda não sabias como vencer. Dos dias em que continuaste sem qualquer certeza de que as coisas iriam melhorar. Das vezes em que tiveste de tomar decisões sem saber se eram as certas. Dos recomeços que fizeste ainda cansada do capítulo anterior. Das manhãs em que te levantaste enquanto existia dentro de ti uma vontade enorme de desaparecer durante algum tempo do mundo.

Só tu sabes verdadeiramente aquilo que te custou chegar até aqui.

Só tu conheces todas as conversas que tiveste contigo no silêncio, as lágrimas que ninguém viu, os medos que escondeste enquanto continuavas a cumprir os teus dias, as vezes em que tiveste de reunir pedaços teus e continuar sem sequer saber se algum dia voltarias a sentir-te inteira.

É também por isso que acredito que precisamos de nos armar para a vida. Não de frieza. Não de indiferença. Não daquela independência construída como uma muralha onde ninguém consegue entrar. Precisamos de nos armar de amor-próprio, consciência, coragem, autonomia emocional, capacidade de nos escutarmos e confiança suficiente na nossa própria história para sabermos que, quando chegar uma nova tempestade, podemos não conhecer ainda a saída, mas já conhecemos a mulher que vai procurá-la.

Tu.

Aquela que já esteve em lugares onde julgava não conseguir permanecer e permaneceu.

Aquela que perdeu coisas que pensava não conseguir perder e continuou.

Aquela que já teve medo do futuro e acabou por chegar a dias que, naquela altura, nem conseguia imaginar.

Aquela que caiu, que se enganou, que desistiu de algumas coisas, que recomeçou outras, que nem sempre soube ser forte e que, ainda assim, chegou até aqui.

A vida ainda vai desafiar-te. Ainda haverá perdas, mudanças, decisões difíceis, finais inesperados e momentos em que vais desejar que alguém pudesse entrar dentro de ti e carregar por algumas horas aquilo que te pesa. Não poderá. Algumas partes da nossa existência pertencem-nos por inteiro e é precisamente por isso que a relação que construímos connosco importa tanto.

Quando esses dias chegarem, quero que tenhas dentro de ti um lugar onde regressar.

Que saibas olhar para trás sem vergonha daquilo que não conseguiste. Que reconheças tudo aquilo que já atravessaste. Que consigas encontrar na tua própria história provas suficientes de que houve outros momentos em que não sabias como continuar e acabaste por encontrar um caminho.

E que exista sempre dentro de ti alguma fé no que ainda vem.

Não aquela fé ingénua de acreditar que daqui para a frente nada vai correr mal. A fé serena de quem já percebeu que a vida pode mudar de repente e, mesmo assim, confia na própria capacidade de voltar a encontrar chão.

Agradece o caminho que já fizeste. Faz as pazes com quem foste. Orgulha-te profundamente de quem és.

E quando voltares a duvidar se tens força suficiente para aquilo que ainda falta viver, olha para trás.

Os momentos mais difíceis da tua vida podem ter sido aqueles em que mais sozinha te sentiste.

Mas foram também aqueles em que descobriste que, mesmo quando ninguém podia atravessá-los por ti, havia alguém dentro de ti que continuava a tentar encontrar o caminho.

Tu.

Bárbara Pereira 

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