Não sofremos apenas para deixar aquilo que foi bom. Também podemos sofrer para deixar aquilo que nos doeu

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 17:32

Falamos muito sobre mudanças, novos ciclos, recomeços e sobre a coragem necessária para deixar algumas coisas para trás. Gostamos de imaginar que aquilo que foi bom será sempre mais difícil de abandonar, enquanto os lugares onde não fomos felizes deveriam ser fáceis de deixar. Como se bastasse reconhecermos que alguma coisa nos fez mal para o coração arrumar as malas sem hesitar e seguir caminho sem olhar para trás.


Mas as emoções raramente funcionam com essa lógica. Também custa deixar para trás aquilo que nos doeu.

E não digo isto para romantizar o sofrimento. Nunca precisei de acreditar que tudo aquilo que nos acontece tem de ser bonito, necessário ou transformador para conseguir aceitar que fez parte da nossa vida. Há experiências que gostaríamos de não ter vivido, lugares onde permanecemos mais tempo do que deveríamos, conexões onde nos perdemos, fases que nos cansaram profundamente e decisões que, se pudéssemos regressar atrás com aquilo que sabemos hoje, provavelmente tomaríamos de outra maneira.

Ainda assim, fizeram parte de nós. A nossa experiência não chega ao coração dividida em pequenas caixas onde guardamos de um lado aquilo que foi bom e, do outro, aquilo que foi mau. Vivemos tudo com a mesmo coração. Foi a mesma pessoa que riu e chorou naquele lugar, que acreditou e se desiludiu, que tentou, desistiu, voltou a tentar, teve esperança, perdeu-a e encontrou alguma coisa dentro de si para continuar. Mesmo os capítulos mais difíceis ocuparam dias reais da nossa existência. Houve manhãs, noites, rotinas, pessoas, cheiros, caminhos, objectos, hábitos, expectativas. Houve vida.

E despedirmo-nos de uma parte da nossa vida mexe connosco, independentemente da quantidade de felicidade que existiu nela.

Por isso, quando alguém pergunta "mas se não eras feliz, por que razão te custa tanto deixar isso para trás?", nem sempre existe uma resposta simples.

Custa porque estivemos ali. Porque houve uma versão nossa que habitou aquele lugar e fez o melhor que conseguiu com aquilo que tinha. Porque houve coisas pelas quais lutamos mesmo quando não resultaram. Depositamos esperança onde hoje sabemos que já não queremos permanecer. Imaginamos futuros que nunca chegaram a existir. Porque insistimos, esperámos e demos partes de nós a uma história que agora termina e sabemos que, quando fecharmos definitivamente aquela porta, alguma coisa ficará para sempre do outro lado.

Não precisamos de querer voltar para sentir a despedida.

Podemos saber profundamente que chegou a hora de avançar e sentir um aperto quando avançamos. Podemos estar certas da decisão e chorar por aquilo que estamos a deixar. Podemos desejar muito o que vem a seguir e continuar a sentir tristeza por aquilo que termina. Uma emoção não invalida a outra. O entusiasmo pelo futuro não nos obriga a ser indiferentes ao passado.

Há mudanças que carregam uma espécie de luto difícil de explicar precisamente porque ninguém morreu e, aparentemente, estamos a caminhar para melhor.

Mas morreu uma rotina. Terminou uma versão da nossa vida. Ficou para trás uma mulher que já não seremos exatamente da mesma maneira.

E essa despedida também merece espaço.

Merece que não nos apressemos a transformar tudo em entusiasmo só porque estamos a começar alguma coisa nova. Merece que possamos olhar uma última vez para aquilo que terminou sem alguém nos perguntar por que razão estamos emocionadas se "aquilo nem sequer nos fazia bem".
Merece silêncio. Merece lágrimas, se elas vierem. Merece gratidão pelo que existiu de bom e honestidade suficiente para reconhecer aquilo que doeu.

Não precisamos de agradecer ao sofrimento. Podemos agradecer a nós próprias por termos atravessado aquele tempo.

Pela mulher que tentou quando ainda acreditava que conseguiria fazer resultar. Pela que suportou mais do que hoje suportaria. Pela que não sabia ainda aquilo que agora sabe. Pela que encontrou pequenos momentos de felicidade mesmo dentro de fases difíceis. Pela que foi mudando silenciosamente até chegar ao momento em que conseguiu dizer: agora é para avançar.

Há muita coisa nossa espalhada pelos lugares onde já vivemos, pelas pessoas que amamos, pelos trabalhos que tivemos, pelas relações que terminaram, pelas cidades onde fomos felizes ou profundamente infelizes, pelas casas onde choramos e também fizemos café numa manhã qualquer, pelas versões de futuro que imaginamos e nunca chegaram a acontecer.

Quando partimos, não conseguimos recolher tudo. E penso que também não precisamos.

Algumas partes nossas pertencem às histórias que as viveram. Ficam lá, não como uma dívida que nos obriga a regressar, mas como testemunho de que estivemos naquele lugar, de que aquela vida aconteceu, de que aquela mulher existiu.

Seguir em frente não exige apagar as pegadas. Exige apenas aceitar que já não precisamos de continuar a caminhar na mesma direcção.

Por isso, antes de entrares num novo ciclo, não te obrigues a sentir apenas felicidade. Se doer, deixa doer. Se sentires saudades de alguma coisa que sabes que não queres de volta, não te julgues. Se olhares para trás quando já decidiste avançar, não confundas isso com arrependimento. Há despedidas que precisam de um último olhar antes de conseguirmos fechar a porta em paz.

Arruma aquilo que precisa de ser arrumado dentro de ti. Reconhece o que foi bonito. Aceita aquilo que foi difícil. Perdoa o que conseguires perdoar. Faz as pazes com aquilo que não consegues mudar.

E agradece, sobretudo, a ti. À mulher que viveu aquela fase inteira, sem poder escolher apenas os dias bons.

Depois avança. Há ciclos que terminam com um sorriso. Outros terminam com lágrimas. Alguns chegam ao fim trazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

E nenhum deles precisa de ter sido feliz para ser difícil dizer-lhe adeus.

Bárbara Pereira 

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