Lugares do coração

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 17:29

Quem me acompanha há algum tempo já deve conseguir perceber que muitos dos textos que escrevo também carregam pedaços da minha história. Algumas reflexões nascem de experiências que vivi, outras de histórias que fui conhecendo pelo caminho ou que alguém decidiu confiar-me, sempre com o cuidado de preservar aquilo que pertence à intimidade de cada pessoa. Acredito que, por mais diferentes que sejam as nossas vidas, acabamos muitas vezes por nos encontrar nos mesmos lugares humanos. Mudam as circunstâncias, os recursos que temos, a forma como sentimos e atravessamos cada experiência, mas o amor, a perda, o medo, a esperança, os recomeços, as despedidas e tantas outras coisas fazem parte desta estranha e bonita experiência de permanecermos algum tempo por aqui.



Já pensei algumas vezes sobre o quanto nos devemos expor quando escrevemos a partir da nossa própria vida. Haverá quem ache demasiado e quem prefira guardar determinadas coisas apenas para si, e todas essas escolhas são legítimas. Eu escolhi não ter vergonha da minha história. Não tenho vergonha das minhas feridas, das minhas alegrias, das minhas quedas, das minhas conquistas, das decisões acertadas ou daquelas que hoje tomaria de outra maneira. Tudo isso também sou eu. E se alguma coisa que vivi, depois de transformada em palavras, conseguir chegar ao coração de alguém e fazê-la sentir-se um pouco mais compreendida na sua própria história, então a partilha já encontrou um sentido.

Hoje escrevo-vos de um lugar particularmente pessoal.

Já vivi em muitas casas e em várias cidades. Sou transmontana, foi em Trás-os-Montes que começaram as primeiras páginas da minha história e, ao longo da vida, fui deixando pedaços meus por diferentes lugares. Alguns foram apenas moradas. Outros tornaram-se casa de uma maneira que não se consegue explicar.

Esposende foi uma delas.

Foi a cidade que escolhi para o segundo lugar do meu coração, logo depois de Mirandela. Trouxe-me tanto conforto que houve um tempo em que não conseguia imaginar-me a sair daqui. E, no entanto, hoje chegou esse dia.

Saio por escolha própria, ainda que um bocadinho empurrada pela vida, como tantas vezes acontece quando percebemos que algumas decisões são nossas e das circunstâncias ao mesmo tempo. Sei para onde quero caminhar. Tenho fé pousada no futuro e sinto gratidão pela possibilidade de começar uma nova fase. Ainda assim, hoje estou profundamente emocionada.

A última noite na casa onde vivi e nesta cidade foi particularmente difícil. As emoções estavam estranhamente tranquilas, mas a cabeça parecia querer percorrer, numa única noite, todos os caminhos que fiz durante estes anos. Lugares, acontecimentos, pessoas, dificuldades, pequenas rotinas que pareciam insignificantes enquanto aconteciam e que, quando sabemos que estamos a vivê-las pela última vez, ganham de repente outro peso.

Podemos fazer muitas escolhas ao longo da vida e manter os olhos inteiros no futuro. Podemos desejar profundamente aquilo que vem a seguir, saber que chegou a hora de partir e sentir entusiasmo pelo desconhecido que começa a abrir-se diante de nós. Mas jamais deveríamos precisar de esquecer de onde viemos para conseguirmos avançar.

Há lugares que ficam em nós.

Ficam pela pessoa que fomos enquanto os habitamos, pelas coisas que aprendemos, pelo que suportamos, pelo que celebramos, pelos dias absolutamente banais que só mais tarde percebemos terem sido vida a acontecer. Ficam pelas manhãs em que acordamos sem saber tudo aquilo que aquele dia nos iria trazer e pelas noites em que regressamos diferentes da pessoa que tinha saído de casa algumas horas antes.

Hoje sou profundamente grata por esta casa, por esta cidade que me acolheu e por todas as experiências que aqui vivi. Pelas bonitas e pelas difíceis. Pelas que guardarei com saudade e pelas que prefiro deixar exatamente onde aconteceram. E sou ainda mais grata por ter chegado ao momento em que posso avançar.

Não sei exatamente aquilo que a próxima casa, o próximo lugar ou esta nova fase vão trazer à minha vida. E acho que há qualquer coisa de bonito em não saber.

Levo comigo aquilo que importa.

A mulher que chegou aqui já não é exatamente a mesma que hoje se despede.

E isso, por si só, diz muito sobre tudo aquilo que aconteceu entre uma coisa e outra.

Hoje fecho uma porta com os olhos um pouco húmidos e o coração virado para aquilo que vem a seguir. Não preciso de escolher entre a tristeza de partir e a felicidade de avançar. Posso sentir as duas. Posso agradecer profundamente aquilo que termina enquanto desejo, com a mesma profundidade, aquilo que começa.

Há lugares dos quais partimos sem nunca chegarmos verdadeiramente a sair.

E Esposende será sempre isso para mim: um cantinho encantado, plantado à beira-mar, onde uma parte da minha história ficará para sempre a morar.

Bárbara Pereira 

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