Quando já fizemos tudo o que podíamos.

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 17:25

Há dias em que sentimos que já fizemos tudo aquilo que estava ao nosso alcance.

Pensamos em todas as possibilidades, procuramos soluções, tentamos caminhos diferentes, conversamos, insistimos, esperamos, fizemos aquilo que dependia de nós e chegamos àquele lugar estranho onde já não existe mais nada para resolver com as próprias mãos. E é precisamente aí que percebemos uma das coisas mais difíceis de aceitar: nem tudo na vida pode ser controlado pela nossa vontade, pelo nosso esforço ou pela quantidade de amor que colocamos naquilo que desejamos.

Há momentos em que só nos resta entregar.



Ajoelhar no chão, fechar os olhos e pedir em oração que uma força maior guie o nosso caminho, os nossos passos e os sentimentos do nosso coração.

Não importa muito o nome que lhe damos.
Deus. Universo. Vida. Luz. Fé. Uma presença que não conseguimos explicar. Cada pessoa encontrará dentro da sua própria história a palavra que mais se aproxima daquilo em que acredita. E haverá também quem não precise de lhe dar nome algum para sentir que existe alguma coisa maior do que aquilo que conseguimos compreender.

Eu acredito profundamente nessa força.

Acredito sobretudo naqueles momentos em que o ruído dentro de nós é tão grande que já não conseguimos distinguir aquilo que queremos daquilo que precisamos, o medo da intuição, a ansiedade da realidade, aquilo que podemos mudar daquilo que precisamos finalmente de aceitar.

É nesses dias que a oração deixa de ser apenas um pedido. Passa a ser entrega.

Entregar não significa desistir daquilo que desejamos nem esperar que alguma força invisível faça por nós aquilo que nos compete fazer. Há uma responsabilidade que continuará sempre nas nossas mãos. Precisamos de escolher, agir, tentar, mudar, procurar soluções e assumir as consequências dos caminhos que decidimos percorrer. A fé nunca deveria servir para nos retirar responsabilidade pela nossa própria vida. Mas também precisamos de reconhecer quando chegamos ao limite daquilo que podemos fazer.

Há uma paz pura nesse momento. Naquele instante em que conseguimos dizer: eu fiz aquilo que podia. Agora entrego aquilo que já não depende de mim.

Nem sempre essa entrega acontece serenamente. Há dias em que rezamos a chorar. Há orações feitas no chão, outras dentro do carro, no silêncio de um quarto, durante uma caminhada ou de olhos abertos enquanto tentamos simplesmente continuar o dia. Há pedidos que nem sequer conseguimos transformar em palavras. Ficamos em silêncio e esperamos que aquilo em que acreditamos consiga compreender uma linguagem que o coração conhece melhor do que a boca. E acredito que compreende.

Há dias em que não precisamos de respostas imediatas. Precisamos apenas de sentir que não estamos perdidas dentro daquilo que ainda não conseguimos compreender.

Que alguma coisa nos acalme.
Que alguma coisa nos devolva ao centro.
Que exista uma luz suficientemente pequena para conseguirmos ver apenas o próximo passo, mesmo quando o caminho inteiro continua escondido.

Passamos grande parte da vida à procura de segurança fora de nós. Queremos sinais, certezas, garantias de que escolhemos bem, de que aquilo que desejamos vai acontecer, de que as pessoas vão ficar, de que os nossos planos vão resultar e de que o futuro se vai comportar como imaginamos. Contudo, a vida não nos deve nada

Por isso a fé, para mim, nunca foi saber exactamente aquilo que vai acontecer. É conseguir continuar sem saber.

É reconhecer que existem momentos em que a nossa visão alcança apenas alguns metros e, ainda assim, alguma coisa dentro de nós acredita que haverá caminho depois deles.

Essa força maior que tantas vezes procuramos no céu também encontra morada dentro de nós. Está naquele lugar onde conseguimos respirar depois de uma noite difícil. Na coragem que aparece quando julgavamos já não ter nenhuma. Na serenidade inesperada depois de termos chorado tudo aquilo que precisavamos. Na voz interior que, mesmo sem conseguir explicar como, continua a dizer baixinho que avancemos mais um pouco.

Não sei se alguma vez conseguiremos compreender inteiramente aquilo que nos guia. Também não sei se precisamos.
Há coisas que pertencem mais ao sentir do que à explicação.

Hoje quero apenas desejar-te isto: que, nos dias em que já tiveres feito tudo aquilo que estava ao teu alcance, não te castigues por não conseguires fazer mais.

Entrega.

Fecha os olhos se precisares. Ajoelha se o teu coração te pedir. Reza com palavras, com lágrimas ou simplesmente com silêncio.

Pede que os teus passos sejam guiados para aquilo que te fizer bem. Que o teu coração encontre serenidade para aceitar aquilo que não pode mudar e coragem para continuar a agir sobre aquilo que ainda está nas tuas mãos. Que consigas distinguir insistência de esperança, medo de intuição e controlo de cuidado.

E que essa força maior nunca te abandone, não apenas aquela que procuras quando levantas os olhos para o céu, como também aquela que vive silenciosamente dentro de ti e que, tantas vezes sem perceberes, já te trouxe até aqui.

Bárbara Pereira

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