Crescemos e aprendemos muito sobre cuidar de nós. Falamos de autocuidado, amor-próprio, protecção da nossa energia, descanso e de tudo aquilo que pode trazer mais paz à mulher que somos hoje. Contudo, no meio de tantos cuidados com a nossa versão adulta, há uma pergunta que raramente fazemos:
E a menina que ainda vive dentro de ti, o que é que a faria feliz hoje?
Normalmente pensamos na mulher que somos hoje. Naquilo de que gostamos agora, nas coisas que aprendemos sobre nós, nos lugares onde encontramos tranquilidade e em tudo aquilo que combina com a vida adulta que fomos construindo. Mas hoje quero convidar-te a cuidar de uma parte tua que podemos esquecer pelo caminho: a criança que ainda vive dentro de ti.
Quando foi a última vez que fizeste alguma coisa que a faria feliz?
Colocar uma música que ouvíamos em pequenas e dançar sem pensar se sabemos dançar. Caminhar à chuva sem nos preocuparmos imediatamente com o cabelo molhado. Saltar numa poça de água. Apanhar flores no campo. Deitar na relva e olhar para o céu. Comer alguma coisa que nos faz lembrar a infância. Voltar a ver um filme que adorávamos. Andar descalças. Fazer um desenho sem precisar de saber desenhar. Correr, rir alto, fazer alguma coisa apenas pelo prazer de fazê-la, sem qualquer utilidade, produtividade ou propósito. Coisas tão simples que nessa altura nem precisavam de ter um nome. Fazíamo-las apenas porque nos faziam felizes.
Crescemos e começamos a abandonar algumas destas coisas. Umas por falta de tempo, outras porque os nossos gostos mudaram e tantas simplesmente por termos aprendido a considerá-las infantis.
Mas deixa-me dizer-te uma coisa: não é infantil ser feliz.
Não é infantil seres espontânea, deixares-te encantar por coisas simples ou fazeres alguma coisa que te provoca aquele sorriso que nasce primeiro por dentro. Há uma parte de nós que continua a precisar de brincar, descobrir, imaginar e sentir o mundo sem transformar cada momento numa tarefa.
A nossa criança interior não ficou parada numa infância perfeita, protegida de tudo aquilo que aconteceu. Também pode carregar medos, ausências e coisas que nunca conseguiu compreender. Mas guarda igualmente uma espontaneidade que a vida adulta tantas vezes vai silenciando, aquela capacidade de ficar feliz com muito pouco, de inventar mundos, de encontrar magia onde hoje passamos apressadas sem sequer reparar.
Por isso, cuida da mulher que és hoje. Dá-lhe descanso, limites, segurança, amor, silêncio e tudo aquilo de que precisa para continuar a construir a sua vida. Mas, de vez em quando, pergunta também à menina que foste:
Do que é que tens saudades?
E se ainda estiver ao teu alcance, vai buscá-lo. Leva essa menina contigo. Deixa-a apanhar flores, molhar os pés, cantar a música inteira, olhar demoradamente para o pôr do sol e entusiasmar-se com coisas que o mundo adulto considera pequenas demais.
Crescer nunca deveria obrigar-nos a abandonar todas as versões que fomos. Há partes da infância às quais não queremos voltar. Mas há outras que merecem continuar a viver conosco. Sobretudo aquela que ainda sabe sorrir sem precisar de uma razão muito complicada para isso.
Bárbara Pereira
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