Deixei de resolver problemas que ainda não existem

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 16:50

Quando penso na forma como fui atravessando a vida, consigo reconhecer versões muito diferentes de mim. Em criança e ainda durante uma parte da juventude, existia em mim uma maneira bastante livre de estar no mundo. Não falo das dores da infância, das dificuldades que vivi ou daquilo que qualquer crescimento traz consigo. Falo da relação que tinha com o que ainda não tinha acontecido. Eu não carregava antecipadamente o dia seguinte.


As coisas chegavam e eu lidava com elas quando chegavam. Havia uma espontaneidade que me permitia viver sem estar constantemente a perguntar o que poderia correr mal depois.

A vida adulta trouxe-me outra versão. Tornei-me alguém extremamente capaz de antecipar. Pensava nos problemas antes de eles existirem, imaginava cenários, preparava respostas, organizava possibilidades e tentava deixar cada passo suficientemente definido para diminuir ao máximo aquilo que pudesse surpreender-me. Nunca fiz isso por acreditar que não seria capaz de ultrapassar uma dificuldade. Sempre existiu em mim uma confiança muito grande na minha capacidade de 'dar a volta', procurar recursos e encontrar uma saída quando a vida assim exigia.

O bloqueio estava noutro lugar: eu queria estar preparada antes de precisar de estar.
E isso cansava-me muito mais do que eu percebia.

Podia estar a viver uma manhã perfeitamente tranquila enquanto uma parte da minha cabeça já se encontrava três meses à frente a resolver uma situação que nunca tinha acontecido. Um pequeno imprevisto transformava-se rapidamente numa emergência de infinitas possibilidades.

"Se acontecer isto, faço aquilo. Se aquilo não resultar, tenho esta alternativa. E se depois surgir outra coisa? Também convém pensar nisso."

Quando dava por mim, tinha acabado de atravessar mentalmente cinco problemas, encontrar trinta soluções e gastar uma quantidade considerável de energia com uma realidade que só existia dentro da minha cabeça.

O mais irónico é que muitos desses problemas nunca chegaram. Eu sofria antecipadamente por acontecimentos dos quais a vida acabaria por me poupar.

Hoje consigo perceber que o controlo me dava uma sensação de segurança. Ter tudo pensado, organizado e previsto fazia-me acreditar que diminuía o espaço para ser apanhada desprevenida.

Contudo preciso de te dizer que existe um preço enorme em tentar proteger-nos constantemente do inesperado: começamos a viver uma parte da vida num futuro imaginado e deixamos o presente ocupado por preocupações que ainda nem lhe pertencem.

A ansiedade encontrou aí terreno fértil. Nunca na ideia de “eu não vou conseguir”, mas naquela necessidade permanente de “eu preciso de saber como vou conseguir”. E são coisas muito distintas.

Tenho vivido uma fase mais serena. Sinto até que existe nela qualquer coisa da menina que fui, só que agora acompanhada pela experiência da mulher em que me tornei. Continuo responsável, a organizar aquilo que precisa de organização, a pensar nas consequências das minhas escolhas e a preparar o que realmente precisa de ser preparado. Ter fé na vida nunca me pareceu incompatível com ter os pés no chão.

Mas deixei de puxar problemas do futuro para os resolver no presente.

Se existe um problema hoje, olho para ele. Se precisa de uma decisão, procuro tomá-la. Se há alguma coisa que posso prevenir de forma sensata, faço a minha parte. O que já não quero é ocupar este dia com uma dificuldade que pode aparecer daqui a seis meses, construir uma resposta para uma pergunta que ninguém me fez ou perder a paz de um momento real por causa de um cenário imaginário.

E tem sido libertador descobrir que não preciso de conhecer antecipadamente todas as respostas para confiar em mim.

A segurança que eu procurava no controlo nunca esteve verdadeiramente em conseguir prever tudo. Estava naquilo que eu própria já sabia sobre mim e, estranhamente, esquecia enquanto tentava controlar o caminho: quando a vida me colocou diante de dificuldades reais, eu encontrei formas de atravessá-las. Nem sempre imediatamente, nem sempre sem medo, nem sempre da maneira que gostaria, mas encontrei recursos quando precisei deles.

Hoje prefiro confiar um pouco mais nessa mulher.

Não preciso de receber amanhã com todas as soluções preparadas. Quando amanhã chegar, eu também estarei lá.

E esta mudança devolveu-me uma coisa que reconheço profundamente na minha essência: a capacidade de deixar a vida acontecer sem tentar vivê-la antecipadamente. De permitir que algumas respostas só apareçam quando existir uma pergunta. De não transformar possibilidades em preocupações e preocupações em pesos reais.

Há problemas que precisam da nossa atenção, os outros podem continuar onde estão: num futuro que ainda nem decidiu se vai trazê-los.

Passei uma parte da vida a preparar-me para aquilo que poderia acontecer. Hoje quero guardar a minha energia para aquilo que realmente acontecer.

Bárbara Pereira 

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