Hoje não acordei propriamente a rainha da motivação.
Alguma coisa dentro de mim está exausta. E conheço-me o suficiente para saber que não existe uma única razão à qual possa apontar o dedo e dizer: foi isto. São várias coisas acumuladas, umas maiores, outras aparentemente insignificantes, algumas que já consegui compreender e outras que ainda andam cá dentro sem nome. Só sei que estão. E esta manhã senti-as naquela vontade súbita de chorar que aparece antes de conseguirmos organizar qualquer pensamento.
Conheço bem esse choro. Já o vivi de duas formas completamente diferentes. Existe aquele que nasce de uma tristeza tão funda que as lágrimas chegam primeiro do que as palavras, como se o corpo encontrasse uma saída para aquilo que ainda não conseguimos dizer. E existe o outro, aquele que vem da alegria genuína, de uma felicidade tão inteira que nem sequer precisa de uma razão extraordinária para existir. Também já chorei assim, com o coração cheio de vida, tocada por uma música, por um pôr do sol, por um instante aparentemente pequeno que encontrou em mim um lugar enorme.
Hoje não estou nesse segundo lugar.
Hoje as lágrimas vêm de uma parte de mim que está cansada e triste. E, curiosamente, já não sinto a necessidade de fugir dela.
Durante anos, sempre que chegava a uma fase difícil, a minha primeira reacção era lutar. Lutava com o que estava a acontecer, com aquilo que sentia, com a tristeza, com as minhas emoções e, sobretudo, comigo. Queria sair rapidamente dali. Queria encontrar uma solução, compreender, decidir, melhorar, recuperar, voltar a ser a pessoa que eu achava que devia ser. Como se sentir dor fosse um problema adicional que precisava de resolver.
No meio de tudo aquilo que a vida já colocava à minha frente, eu ainda conseguia tornar-me mais um obstáculo para mim própria.
Hoje faço diferente. Fico.
Fico comigo tanto quanto consigo, procuro alguma paz dentro daquilo que estou a sentir e aceito que existem emoções que precisam de atravessar o corpo antes de conseguirem partir. Penso muitas vezes na dor como alguma coisa que ficou fechada dentro de nós. Podemos passar anos a evitar aquela porta, distraídas com trabalho, relações, projectos, obrigações, pessoas, espiritualidade, dias preenchidos até ao último minuto. Podemos virar a cara sempre que sentimos alguma coisa a mexer lá dentro. A porta continua fechada.
Libertar implica abri-la.
E abrir a porta nem sempre é bonito. Pode ser chorar sem sabermos explicar exactamente o motivo, admitir que estamos cansadas, reconhecer uma tristeza que preferíamos já ter ultrapassado, passar uma manhã sem produzir absolutamente nada ou simplesmente permanecer em silêncio sem tentar transformar imediatamente aquilo que sentimos numa aprendizagem.
Esta manhã lembrei-me de uma frase que alguém me disse há muitos anos: “Quando não souberes o que fazer, não faças nada.”
Na altura achei aquilo absurdo. Até um bocadinho irritante, confesso. Como assim não fazer nada? Eu tinha de fazer alguma coisa. Tinha de melhorar, sair daquela situação, encontrar respostas, tomar decisões, procurar soluções, livrar-me daquela tristeza profunda. A minha cabeça transformava cada emoção difícil numa emergência e eu corria desesperadamente à procura da saída.
Hoje compreendo aquela frase de outra maneira.
Existem estados emocionais nos quais não precisamos imediatamente de uma decisão. E existem dias em que não fazer nada pode ser precisamente a forma de não acrescentarmos mais violência àquilo que já está a doer. Podemos adiar uma resposta, não tomar aquela decisão importante, cancelar o que não é urgente, ficar em silêncio, chorar, dormir, escrever ou simplesmente permanecer connosco até conseguirmos ouvir o que existe debaixo de todo o ruído.
Hoje não quero resolver-me.
Não quero obrigar a tristeza a sair só para poder dizer que estou bem outra vez. Não quero negociar com as minhas lágrimas nem transformar esta manhã numa corrida para recuperar a motivação. Quero permitir que aquilo que está preso encontre finalmente uma porta aberta.
Se hoje eu não conseguir fazer nada, não faço.
Há uma liberdade imensa em conseguir escrever isto depois de tantos anos em que acreditava que parar significava desistir.
Hoje sei que posso parar sem abandonar o meu caminho. Posso estar triste sem transformar a tristeza na minha identidade. Posso chorar sem procurar imediatamente uma explicação para cada lágrima. Posso não saber o que fazer e continuar segura dentro de mim enquanto não sei.
A dor que acolhemos já não precisa de gastar tanta força a bater à porta para ser ouvida.
Por isso, hoje fico aqui. Sem guerra comigo, sem pressa de chegar à versão de mim que amanhã estará melhor, sem exigir que esta manhã seja diferente daquilo que consegue ser.
Se as lágrimas vierem, deixo-as vir.
Há coisas que só conseguimos deixar ir depois de finalmente lhes permitirmos passar por nós. E, por vezes, a rendição também cura.
Bárbara Pereira
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