Nesta página já falei muitas vezes sobre autoconhecimento. E provavelmente continuarei a falar, porque há coisas que não conheci apenas através dos livros.
Senti-as na minha própria alma, nos passos que dei, nas lágrimas que chorei e nos risos que também fizeram parte do caminho. Senti-as cada vez que confiei e cada vez que desanimei, quando tive certezas e quando deixei de saber para onde ir, nos momentos em que me reconheci na mulher que estava a tornar-me e naqueles em que precisei de me perguntar quem era depois de tudo aquilo que tinha vivido.
É por isso que me custa falar de autoconhecimento como uma ideia bonita e quase romântica. Sem qualquer desvalorização pelos livros de autoajuda, porque acredito que uma frase pode chegar no momento certo, que determinadas palavras nos dão força e que ler sobre aquilo que estamos a viver pode ajudar-nos a compreender coisas para as quais ainda não tínhamos nome. Há livros que abrem portas dentro de nós e palavras que nos acompanham durante anos. Só que depois existe a vida, e a vida não nos ensina através de páginas perfeitamente organizadas onde terminamos um capítulo e sabemos exactamente aquilo que aprendemos.
O autoconhecimento que vivi aconteceu no meio das tempestades, enquanto tentava perceber por que razão alguma coisa me doía tanto, enquanto descobria limites que nunca tinha colocado, enquanto reconhecia medos que influenciavam escolhas sem eu perceber, quando precisei de aceitar que também tinha errado e quando tive de aprender a não assumir como meus os erros que pertenciam a outras pessoas.
Conhecermo-nos profundamente nem sempre é confortável. Há momentos em que descobrimos partes nossas das quais gostamos muito e sentimos orgulho na pessoa em que nos tornamos. Noutros encontramos feridas que julgávamos ultrapassadas, padrões que continuamos a repetir, fragilidades que preferíamos não ter e verdades sobre a nossa própria história que durante anos encontramos formas de não olhar. Para mim, porém, a parte mais dolorosa nem sequer foi descobrir quem eu era. Foi perceber tudo aquilo que precisei de atravessar até conseguir chegar a algumas dessas descobertas.
Houve coisas que vivi que não merecia ter vivido, momentos que me levaram até lugares dentro de mim onde nunca teria escolhido entrar e situações que me deixaram cansada, que me fizeram duvidar de mim, que tocaram em partes tão profundas que houve dias em que senti que já não existia força suficiente para continuar a procurar uma saída. E não agradeço à dor por isso. Continuo a acreditar que existem aprendizagens que poderíamos ter feito sem precisar de sofrer tanto. Há feridas que não se tornam bonitas apenas porque conseguimos retirar alguma coisa delas e experiências que continuariam a ser injustas mesmo que nos tivessem transformado na pessoa mais forte do mundo.
Se hoje consigo reconhecer alguma coisa de valioso nesses lugares, reconheço-a em mim, na mulher que continuou mesmo sem perceber exactamente o que estava a acontecer dentro dela, que foi juntando os próprios pedaços, fazendo perguntas, mudando escolhas, reconhecendo limites e aprendendo pouco a pouco a distinguir aquilo que era seu daquilo que carregava dos outros.
Foi assim que comecei verdadeiramente a conhecer-me. Não numa versão perfeita de mim, onde todas as feridas estavam curadas e todas as respostas encontradas, mas na contradição, na coragem e no medo, na força e no cansaço, nas decisões de que me orgulho e naquelas que hoje faria de outra maneira. Fui percebendo quem sou através daquilo que me fazia ficar, daquilo que finalmente consegui deixar, das coisas que me retiravam paz e daquelas que me devolviam a sensação de estar em casa dentro de mim.
E continuo a conhecer-me, como acredito que acontecerá ao longo de toda a vida. Há versões nossas que só aparecem quando determinadas circunstâncias nos encontram, limites que só descobrimos quando são atravessados, forças que desconhecemos até precisarmos delas e sonhos que só conseguimos reconhecer depois de deixarmos de viver segundo aquilo que esperavam de nós.
Por isso, quando falo de autoconhecimento, não consigo falar apenas da parte bonita. Dói olhar para dentro quando aquilo que encontramos ainda está ferido, compreender certas escolhas depois de já termos vivido as consequências delas ou reconhecer quanto tempo permanecemos em lugares que nos diminuíam. E pode doer profundamente perceber que algumas das coisas que nos ensinaram tanto sobre nós chegaram através de experiências que nunca deveríamos ter precisado de suportar.
Ainda assim, vale a pena conhecer a pessoa que existe por dentro de tudo isso. Vale a pena chegar ao ponto em que já não precisamos que alguém nos diga constantemente quem somos, em que começamos a reconhecer aquilo que nos faz bem, aquilo que já não aceitamos, onde termina a nossa responsabilidade e começa a dos outros, o que queremos levar connosco e o que finalmente estamos preparadas para deixar.
O autoconhecimento não me tornou alguém que nunca cai. Deu-me alguma coisa que hoje considero ainda mais importante: quando caio, conheço melhor a mulher que terá de se levantar. Conheço a sua história, sei das vezes em que teve medo e avançou na mesma, das vezes em que pensou que não conseguiria e acabou por encontrar uma forma, das lágrimas que ninguém viu e dos risos que regressaram quando parecia impossível voltar a senti-los.
É por isso que continuo a acreditar que vale a pena, não por tudo aquilo que me aconteceu no caminho, mas por tudo aquilo que fui capaz de encontrar dentro de mim enquanto o atravessava.
Bárbara Pereira
Deixa a tua estrela e ajuda a iluminar este espaço
Adicionar comentário
Comentários