Nem sempre o caminho certo começa em paz.

Publicado em 11 de setembro de 2026 às 16:40

Já alguma vez reparaste que, mesmo nas fases mais bonitas da nossa vida, quando sentimos que finalmente algumas coisas começaram a encontrar o seu lugar, parece existir sempre alguma coisa capaz de nos puxar um pouco para trás?


Tenho pensado muito nisto nos últimos dias.
Podemos sentir, cá dentro, que estamos no caminho certo sem termos tudo resolvido ou qualquer garantia sobre aquilo que vai acontecer. Existe simplesmente uma espécie de certeza difícil de explicar. Sentimos que determinada escolha fazia sentido, que precisavamos daquela mudança, que alguma coisa começou finalmente a aproximar-se da vida que desejávamos construir.

Seria bonito se, depois disso, chegasse imediatamente a paz. Se tomar a decisão certa fizesse desaparecer as dúvidas e os obstáculos e a vida nos oferecesse uma confirmação permanente de que fizemos bem. Só que tenho percebido cada vez mais que as coisas bonitas também precisam de ser construídas e nenhuma construção acontece sem dias mais fáceis e outros em que precisamos de voltar a encontrar dentro de nós a razão pela qual começamos.

Um novo caminho pode trazer entusiasmo e medo. Uma conquista pode chegar acompanhada de novas preocupações. Podemos estar profundamente felizes com uma mudança e sentir, ao mesmo tempo, o peso de tudo aquilo que ainda precisamos de organizar para conseguirmos habitá-la verdadeiramente. Há começos que trazem paz ao coração antes de conseguirem trazer tranquilidade aos dias.

Hoje sinto que algumas destas fases me perguntam até onde confio. Não sei se é a vida a testar-me, se é a minha fé, se sou eu própria a descobrir até onde consigo ir quando aquilo em que acredito encontra resistência. Não sou dona dessa resposta e não quero transformar a minha forma de sentir numa verdade que tenha de servir para toda a gente. Posso apenas falar daquilo que sinto dentro de mim e da forma como tenho escolhido interpretar aquilo que vou vivendo.

A fé, para mim, deixa de ser apenas a confiança de que tudo vai correr bem quando precisamos de continuar a acreditar mesmo perante aquilo que não está a correr como esperávamos. Sentirmo-nos seguras quando tudo à nossa volta confirma as nossas escolhas é relativamente fácil. A verdadeira confiança começa a ser mais exigente quando surgem contratempos, dúvidas e acontecimentos que nos fazem questionar aquilo que, ainda há pouco tempo, sentíamos com tanta certeza.

É nesses lugares que vou descobrindo coisas importantes sobre mim. Percebo até onde confio nas minhas capacidades, o valor que dou àquilo que estou a construir, a força que existe por baixo dos meus medos e a forma como reajo quando a vida não acompanha imediatamente a velocidade dos meus desejos. Vou percebendo, acima de tudo, se continuo a reconhecer as coisas bonitas que levo dentro de mim quando alguma coisa exterior me faz duvidar delas.

Tenho aprendido que estar no caminho certo não nos oferece necessariamente um caminho plano. Existem subidas enquanto avançamos na direção que escolhemos, dias de chuva em lugares onde queremos profundamente permanecer e dúvidas dentro de decisões que continuam a fazer sentido.

Criámos, por vezes, uma imagem demasiado perfeita daquilo que significa uma coisa “dar certo”. Imaginamos que aquilo que é bom para nós chegará acompanhado de serenidade, que os sinais serão claros, que os imprevistos desaparecerão e que sentiremos constantemente a segurança de estarmos no lugar certo. A vida raramente se constrói dessa maneira. Até aquilo que amamos precisa de tempo para ganhar raízes, e uma construção não deixa de fazer sentido apenas por ter conhecido dias difíceis enquanto ainda estava a erguer-se.

Hoje continuo sem saber quem me está a testar. Pode ser a vida, a fé ou alguma parte de mim que ainda está a aprender a confiar na mulher que sou e naquilo que sou capaz de construir. Também já não sinto tanta necessidade de encontrar uma resposta para essa pergunta.

O que não quero é interpretar cada dificuldade como uma indicação para voltar atrás.

Existem obstáculos que merecem ser escutados e que podem mostrar-nos a necessidade de mudar de direção. Outros fazem simplesmente parte da experiência de estarmos vivas, de escolhermos, arriscarmos e construirmos alguma coisa que antes ainda não existia. Aprender a distinguir uns dos outros exige que saibamos escutar aquilo que sentimos sem deixarmos de olhar para aquilo que a realidade nos mostra.

Por isso, hoje escolho confiar na força que fui construindo dentro de mim ao longo de todos os caminhos que já atravessei. Tenho uma certeza muito serena no coração de que tudo vai dar certo, mesmo sem saber exatamente como será esse “dar certo” quando chegar.

E, desta vez, não vou confundir a existência de uma dificuldade com a ausência de um caminho.

Bárbara Pereira 

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