Hoje fiquei a observar o pôr do sol e, sem perceber muito bem porquê, senti os olhos encherem-se de lágrimas. Não eram lágrimas de tristeza. Eram daquelas que parecem nascer num lugar mais fundo, como se a alma encontrasse finalmente uma forma de libertar aquilo que foi guardando em silêncio.
Há qualquer coisa no pôr do sol que muda a energia dentro de nós. A luz vai ficando mais suave, o céu transforma-se devagar e, por alguns minutos, parece que a vida nos pede apenas para estarmos ali. Sem resolver nada, sem procurar respostas, sem pensar no que falta fazer. Apenas a olhar.
Enquanto o observava, senti que aquelas lágrimas estavam a limpar um pouco daquilo que ainda dói, ao mesmo tempo que me devolviam alguma coisa que os dias mais difíceis conseguem fazer-nos esquecer: a capacidade de continuar a encontrar beleza nas coisas simples.
Acho extraordinária esta forma que a natureza tem de chegar até nós sem dizer uma única palavra. Um pôr do sol não conhece a nossa história, não sabe aquilo que carregamos nem os lugares onde precisamos de luz e, ainda assim, consegue tocar-nos precisamente onde alguma coisa dentro de nós precisava de ser tocada.
Hoje senti isso.
Como se, durante alguns minutos, a minha alma estivesse a recuperar luz. A lembrar-se da beleza. A respirar mais devagar. E aquelas lágrimas fossem apenas a maneira mais silenciosa de deixar sair um pouco do peso para voltar a existir espaço para o bonito.
Há qualquer coisa no pôr do sol que muda a energia dentro de nós, como se a luz soubesse exatamente onde tocar.
Bárbara Pereira
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