Há uma coisa que sinto muitas vezes e que hoje quero partilhar contigo: eu sou a pessoa mais forte que conheço. Não digo isto por me comparar com ninguém. Não conheço por inteiro as batalhas dos outros, não sei quanto lhes custaram os caminhos que percorreram e nunca poderia medir a minha força pela história de outra pessoa. Falo apenas da minha. Conheço cada lugar por onde passei, as vezes em que pensei não conseguir continuar, tudo aquilo que precisei de reconstruir e a quantidade de vezes em que encontrei dentro de mim força quando já estava convencida de que não restava nenhuma.
Quando olho para a minha história, sei que sou uma mulher muito forte. E, na verdade, também sou uma das pessoas mais frágeis que conheço.
Durante anos habituamo-nos a ouvir a palavra “frágil” quase sempre como uma crítica. Dizemos a alguém que é demasiado frágil como quem aponta uma falha, uma debilidade que deveria corrigir, uma parte da personalidade que seria melhor esconder para conseguir sobreviver num mundo que tantas vezes valoriza quem parece não se deixar tocar por nada.
Eu já não consigo olhar para a fragilidade dessa forma. A minha fragilidade é precisamente aquilo que permite que tantas coisas me toquem. É a parte de mim que consegue ficar emocionada diante de um pôr do sol, que encontra beleza numa flor no meio do caminho, que sente uma música atravessar lugares onde as palavras não chegam e que consegue permanecer alguns minutos diante do mar simplesmente a sentir. É ela que me faz encontrar significado numa frase de um livro, reparar num gesto que poderia passar despercebido, sentir a energia de um lugar e guardar pequenos momentos que para outra pessoa poderiam não representar absolutamente nada.
Essa mesma sensibilidade também tem um preço. Há palavras que me magoam, atitudes que ficam comigo mais tempo do que gostaria e comportamentos que me fazem sentir profundamente aquilo que outras pessoas conseguiriam simplesmente ignorar. Posso ficar triste com uma falta de cuidado, sentir uma mudança na forma como alguém fala comigo ou perceber aquilo que não chegou a ser dito. Ser sensível ao bonito também significa estar mais disponível para sentir aquilo que dói.
Sempre fomos ensinadas a acreditar que deveríamos endurecer para sofrer menos. Criar uma armadura mais grossa, não levar as coisas 'tão a peito', sentir menos, importar-nos menos. Só que não sei se gostaria da mulher em que me transformaria se, para me proteger de tudo aquilo que pode ferir-me, precisasse também de deixar de ser tocada por tudo aquilo que me encanta.
Prefiro aprender a proteger a minha sensibilidade sem precisar de a destruir.
A força que construí ajuda-me precisamente nisso. Dá-me limites para proteger aquilo que em mim continua delicado, ensina-me a afastar do que me fere e permite-me levantar depois dos dias em que senti demasiado. A fragilidade, por sua vez, impede que toda essa força me endureça. Mantém em mim a capacidade de me comover, de amar, de reparar, de criar, de escrever, de sentir a natureza e de continuar a encontrar beleza num mundo onde seria muito fácil aprender apenas a defender-me.
Hoje sei que estas duas partes de mim nunca estiveram em guerra. A mulher forte que sou protege a mulher frágil que existe em mim. E a mulher frágil lembra à mulher forte por que razão vale a pena continuar a sentir.
Tenho um orgulho enorme na minha força. Sei quanto me custou construí-la e quantas vezes precisei dela para chegar até aqui. Só que, se existe uma parte minha que quero proteger de uma forma ainda mais especial, é esta capacidade de continuar sensível depois de tudo aquilo que já vivi.
Continuar a emocionar-me, a reparar, a acreditar na delicadeza e deixar que uma música, uma palavra, uma paisagem ou um pequeno gesto cheguem até mim.
Até porque, depois de tudo aquilo que poderia ter endurecido o meu coração, ele continuar capaz de sentir profundamente é uma das coisas mais bonitas que reconheço em mim.
Bárbara Pereira
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