Há sonhos que começam sem testemunhas. Ninguém os vê nascer, ninguém percebe ainda aquilo que estamos a tentar construir e, muitas vezes, nem sequer existem resultados suficientes para provar que estamos no caminho certo. Existe apenas uma ideia dentro de nós, uma vontade que insiste, uma espécie de certeza silenciosa de que queremos criar alguma coisa diferente com aquilo que somos, com aquilo que sabemos e, sobretudo, com aquilo que a própria vida nos ensinou.
Construir aquilo em que acreditamos exige uma coragem muito particular, precisamente por existirem fases em que acreditar é praticamente tudo o que temos. Antes dos resultados, antes do reconhecimento, antes de alguém chegar e dizer que aquilo faz sentido, fomos nós que tivemos de lhe dar sentido. Fomos nós que tivemos de aparecer nos dias em que ninguém estava a olhar, continuar quando os números eram pequenos, experimentar, falhar, mudar de direcção e voltar a colocar o coração naquilo que ainda estava longe daquilo que imaginávamos.
E penso que existe muita coragem nas coisas que começam assim, pequenas por fora e enormes dentro de quem as está a criar.
Muitas vezes olhamos para aquilo que alguém construiu quando já existem pessoas à volta, portas abertas, reconhecimento, resultados, uma comunidade, um projecto com nome e identidade. Vemos a árvore quando ela já oferece sombra e esquecemo-nos de que houve um tempo em que era apenas uma semente enterrada num lugar onde ninguém conseguia vê-la crescer. Houve alguém que a regou antes de saber se alguma coisa iria nascer dali.
Também acredito que aquilo que queremos levar aos outros precisa, de alguma forma, de começar por existir em nós. É difícil falar de coragem sem alguma vez termos precisado de a encontrar, falar de reconstrução sem conhecermos os nossos próprios escombros, criar lugares de acolhimento sem compreendermos o que significa precisar de um. Há coisas que conseguimos estudar, aprender e aperfeiçoar, mas existem outras que ganham uma profundidade diferente depois de terem atravessado a nossa própria história.
E é por isso que alguns projectos deixam de ser apenas projectos. Tornam-se extensões da pessoa que os criou.
Carregam pedaços da sua história, das suas quedas, das perguntas que fez, das respostas que encontrou e até daquelas que continua a procurar. Quem chega depois pode nunca conhecer tudo aquilo que existiu antes daquele lugar estar pronto, mas encontra qualquer coisa que nasceu desse caminho.
E é assim que uma coisa que começou dentro de nós consegue chegar tão longe.
Uma palavra encontra alguém num dia difícil. Uma ideia muda uma escolha. Uma experiência transforma-se numa forma de acompanhar outra pessoa. Aquilo que um dia tivemos de aprender para sobreviver pode tornar-se parte daquilo que oferecemos a alguém que ainda está a tentar encontrar o seu caminho. Nem tudo aquilo em que acreditamos vai crescer da forma que imaginamos, e construir alguma coisa nossa também implica aceitar essa incerteza. Ainda assim, há sonhos que merecem que lhes demos a possibilidade de existir antes de exigirmos garantias sobre onde nos vão levar.
Por isso, se existe alguma coisa em que acreditas profundamente, começa por lhe dar lugar na tua própria vida. Cuida dela quando ainda for pequena. Dedica-lhe trabalho, tempo, consistência e verdade. Permite-lhe crescer contigo, mudar contigo e encontrar a sua própria forma.
Um dia podes olhar à tua volta e perceber que aquilo que começou apenas como uma convicção dentro de ti se tornou um lugar onde outras pessoas também conseguem encontrar alguma coisa de que precisavam.
Bárbara Pereira
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