É fácil sentirmo-nos espirituais quando a vida está serena. Quando acordamos bem, quando os planos parecem seguir o caminho que desejavamos, quando conseguimos agradecer com facilidade e existe dentro de nós espaço suficiente para acreditar que tudo está exactamente onde deveria estar. Nesses dias, confiar parece quase natural. Acendemos uma vela, fazemos Reiki, meditamos, agradecemos, olhamos para o céu e sentimos que existe uma ordem maior a acompanhar os nossos passos.
A espiritualidade torna-se muito mais desafiante quando a vida deixa de combinar com aquilo que pedimos.
Quando alguma coisa muda inesperadamente, quando um plano em que acreditavamos deixa de existir, quando temos medo daquilo que vem a seguir ou simplesmente acordamos num daqueles dias em que não conseguimos encontrar dentro de nós a serenidade que tantas vezes procuramos oferecer aos outros, podemos começar a questionar a nossa própria fé. Afinal, se acredito tanto, se trabalho a minha energia, se procuro viver de forma consciente, não deveria conseguir atravessar tudo isto de outra maneira?
Ensinaram-nos a confundir evolução espiritual com uma espécie de estado permanente de paz. Como se alguém que trabalha interiormente já não pudesse sentir raiva, medo, tristeza, revolta ou cansaço. Criamos uma imagem tão perfeita da pessoa espiritual que quase lhe retiramos o direito de continuar a ser humana.
Eu vejo a espiritualidade de outra forma.
Para mim, ela revela-se precisamente na humanidade com que atravessamos os dias em que nada parece espiritual. Está na capacidade de sentir sem transformar cada emoção numa falha pessoal, de reconhecer que estamos cansadas sem acreditar que perdemos a nossa força, de ter medo sem concluir que deixamos de confiar na vida. Está também em aceitar que podemos ter feito todo um caminho de consciência e, ainda assim, existirão acontecimentos capazes de nos destabilizar.
A fé que só existe quando recebemos aquilo que pedimos fica sempre dependente das circunstâncias. Há outra fé, mais madura e menos confortável, que nos acompanha quando ainda não sabemos como determinada história vai terminar. Não exige que olhemos para tudo o que acontece e procuremos imediatamente uma mensagem, uma bênção escondida ou uma explicação espiritual. Algumas experiências só doem enquanto estão a acontecer e não precisamos de lhes inventar um significado para conseguirmos atravessá-las.
Também não acredito que precisemos de estar sempre numa “vibração elevada”. Somos seres humanos, não frequências ambulantes obrigadas a emitir luz vinte e quatro horas por dia. Haverá manhãs em que estaremos cheias de esperança e noites em que precisaremos apenas de 'desaparecer'. Dias em que conseguiremos agradecer e outros em que a nossa única prática espiritual será continuar a cuidar de nós enquanto ainda não conseguimos perceber o caminho. E isso também conta.
Podemos rezar com lágrimas nos olhos. Podemos fazer Reiki com o coração cansado. Podemos acreditar em Deus e ter perguntas. Podemos confiar na vida e sentir medo do futuro. Podemos conhecer profundamente a nossa luz e atravessar momentos em que não conseguimos senti-la. Uma coisa não anula a outra.
A espiritualidade que procuro viver não me pede perfeição emocional. Pede-me presença e responsabilidade sobre aquilo que faço com o que sinto, respeito pelos meus limites, consciência sobre a energia que alimento e disponibilidade para regressar a mim sempre que a vida me dispersa.
Foi também assim que o Reiki ganhou lugar no meu caminho: não como uma promessa de uma vida sem dias difíceis, mas como uma prática de cuidado, equilíbrio e reconexão comigo própria. E é essa forma de o viver que quero levar agora ao novo espaço do Bem-Me-Quero, onde estão abertas as marcações para sessões presenciais de Reiki.
Não precisamos de esperar por estar bem para começar a cuidar de nós. A espiritualidade também se pratica nos dias em que não estamos em paz.
Bárbara Pereira
Deixa a tua estrela e ajuda a iluminar este espaço
Adicionar comentário
Comentários