Eu gosto de estar sozinha.Sempre gostei, embora dizer isto assim possa dar a impressão de que foi uma escolha desde o início. Não foi. Quando era criança, não decidi que queria fazer determinados caminhos sozinha, nem acredito que uma criança escolha verdadeiramente a solidão quando poderia ter companhia, presença e alguém com quem dividir aquilo que sente. Algumas coisas começaram simplesmente por ser a realidade que eu tinha e, muito cedo, fui percebendo que existiriam partes do meu caminho onde teria de aprender a fazer-me companhia.
Foi assim que comecei a conhecer esse lugar dentro de mim.
Ao longo da vida conheci pessoas extraordinárias. Pessoas com quem é maravilhoso conversar, rir, partilhar uma mesa, uma viagem, um pensamento ou simplesmente algumas horas. Gosto de pessoas, gosto de conversar, sou sociável, divertida, gosto de conhecer histórias e consigo sentir-me confortável nos mais diferentes ambientes. Por isso, a minha necessidade de estar sozinha nunca nasceu de uma rejeição dos outros. Nasceu de uma relação que fui construindo comigo.
O que começou por ser uma circunstância tornou-se, com os anos, uma necessidade. Hoje preciso dos meus momentos de solitude. Preciso do meu espaço, do meu silêncio, da possibilidade de fechar uma porta e saber que aquelas horas me pertencem. Posso aproveitá-las para escrever, ler, pensar, ouvir música, cuidar da minha energia ou organizar aquilo que anda espalhado dentro de mim. E posso simplesmente não fazer nada. Não ter de conversar, responder, produzir, entreter, explicar ou corresponder a expectativa nenhuma.
Durante esses momentos acontece em mim uma espécie de reorganização silenciosa. É onde recupero energia, onde os pensamentos encontram espaço para respirar e onde consigo ouvir com maior clareza aquilo que sinto. Para quem vive muito através das palavras, das emoções, da criatividade e da relação com outras pessoas, esse silêncio interior também pode ser profundamente fértil. Muitas das coisas que penso, escrevo e compreendo sobre mim precisam desse espaço para nascer.
Ainda existe alguma estranheza social quando alguém diz que gosta de estar sozinho. Rapidamente aparece um “vai sair”, “vai divertir-te”, “combina alguma coisa”, como se uma pessoa sozinha precisasse necessariamente de ser resgatada daquela condição. Compreendo a intenção e reconheço profundamente a importância das relações, do convívio, da amizade, da pertença e da partilha. Precisamos uns dos outros. Só não precisamos uns dos outros em todos os minutos da nossa existência.
Estar sozinha não é necessariamente sentir-me só. Essa diferença mudou muito para mim. Posso estar rodeada de pessoas e sentir uma solidão enorme, da mesma forma que posso estar numa casa silenciosa, apenas comigo, e sentir-me completamente acompanhada. A quantidade de pessoas à nossa volta nunca conseguiu medir, por si só, a qualidade daquilo que sentimos.Também não vejo a necessidade de solitude como sinónimo de introversão. Posso rir alto, conversar durante horas, adorar conviver, conhecer pessoas novas, adaptar-me facilmente a ambientes sociais e, depois de tudo isso, desejar profundamente regressar ao meu espaço. Uma coisa não contradiz a outra. A companhia dos outros alimenta partes de mim e a minha própria companhia alimenta outras.
Existe ainda uma dimensão energética que valorizo muito. Quando estamos permanentemente em contacto com estímulos, conversas, preocupações, expectativas e emoções que chegam de tantos lugares, podemos deixar de perceber com clareza aquilo que realmente nos pertence. O silêncio ajuda-me a regressar ao meu centro, a perceber como estou, aquilo de que preciso e onde quero colocar a minha energia. Para mim, solitude também é isto: voltar a casa dentro de mim.
Claro que existe uma solidão que dói e não quero romantizá-la. Conheço-a. Sei o que significa precisar de alguém e perceber que essa pessoa não está, desejar companhia e não a ter, atravessar partes da vida com a sensação de que gostaríamos de ter uma mão ao nosso lado. Essa solidão merece cuidado e não deve ser confundida com a escolha consciente de passarmos algum tempo connosco.
Só que a minha história acabou por transformar uma coisa na outra.Aquilo que começou sem eu escolher ensinou-me, mais tarde, a escolher. Aprendi a fazer da minha própria companhia um lugar onde consigo descansar. E gosto de pensar que, no meio de uma história onde tantas vezes precisei de caminhar sozinha, consegui construir dentro de mim um espaço onde estar comigo deixou de significar abandono.Hoje significa pertença.
Por isso, já não sinto necessidade de justificar quando digo que quero estar sozinha. Não quer dizer que esteja triste, zangada ou afastada do mundo. Não significa que ame menos as pessoas que fazem parte da minha vida, nem que tenha deixado de querer conhecer outras. Significa simplesmente que aprendi a reconhecer uma necessidade minha e a respeitá-la.
Quero continuar a ter pessoas à minha volta com quem seja bonito partilhar a vida. Quero continuar a rir, conversar, criar memórias, conhecer gente nova e deixar que algumas pessoas entrem verdadeiramente no meu mundo. E quero continuar a fechar a porta de vez em quando, ficar comigo e sentir que não falta ninguém naquele momento.
Aquilo que um dia começou como a obrigação de aprender a estar sozinha tornou-se uma das relações que mais cuido na minha vida: a relação com a minha própria companhia.
Bárbara Pereira
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