Há caminhos que são muito mais difíceis de percorrer quando ainda não conseguimos ver onde terminam. Caminhar quando temos certezas é relativamente simples. Sabemos onde colocar os pés, conseguimos antecipar o que vem a seguir e encontramos na própria realidade motivos suficientes para continuar. O verdadeiro desafio começa quando fazemos tudo aquilo que está ao nosso alcance e, mesmo assim, não temos nenhuma garantia de que as coisas vão acontecer da forma que desejamos.
Tenho vivido muito isso na minha própria vida. Olho para trás e percebo quantas vezes precisei de continuar sem saber. Tomei decisões importantes sem conseguir prever aquilo que encontraria depois delas, deixei lugares que conhecia para começar noutros, reconstruí partes da minha vida enquanto ainda tinha medo de não conseguir e escolhi acreditar em mim em fases em que seria muito mais fácil permanecer onde estava simplesmente por ser conhecido e confortável. Nem sempre fiz tudo sem medo ou acordei cheia de confiança, certa de que a vida estava a encaminhar-me para o lugar certo. Houve dias de dúvida, cansaço e perguntas para as quais continuo sem ter resposta.
É difícil manter a fé quando aquilo que desejamos demora e ainda mais, continuar a acreditar quando fazemos a nossa parte com amor, dedicação e verdade e os resultados não aparecem à velocidade do nosso esforço.
A esperança também se cansa. A fé também conhece dias em que precisa de ser cuidada. Somos humanas, e acreditar não nos torna imunes ao medo de falhar, à vontade de desistir ou à pergunta silenciosa que tantas vezes aparece dentro de nós: e se eu estiver a fazer tudo isto e não resultar?
O Bem-Me-Quero ensinou-me muito sobre isso.
Quando penso neste projecto, não consigo separá-lo completamente da mulher que sou. O Bem-Me-Quero foi crescendo comigo, atravessou fases diferentes da minha vida e recebeu tantas partes daquilo que fui vivendo, aprendendo, questionando e reconstruindo. Muitas das palavras que aqui partilho nasceram primeiro dentro de mim, algumas em dias muito bonitos e outras em lugares onde precisei de procurar profundamente a luz sobre a qual depois escrevi.
E houve muitas vezes em que não sabia onde tudo isto iria chegar. Continuei.
Continuei a escrever, a acreditar no valor de uma palavra que encontra alguém no momento certo, a colocar amor numa página sem saber quantas pessoas a iriam ler, a criar enquanto a minha própria vida também estava em construção. Nem tudo aquilo que fiz teve o resultado que imaginei. Algumas ideias cresceram, outras ficaram pelo caminho, algumas portas abriram-se e outras permaneceram fechadas apesar de eu ter batido nelas com toda a esperança que tinha.
Foi aí que comecei a compreender uma coisa importante sobre a fé: ela não pode depender exclusivamente da confirmação imediata de que estamos a fazer tudo certo.
Há uma parte do caminho que nos pertence. É nossa a responsabilidade de trabalhar, escolher, tentar, corrigir, aprender, voltar a começar quando for necessário e colocar verdade naquilo que fazemos. Depois existe uma parte que já não conseguimos controlar. As respostas dos outros, as oportunidades que aparecem, o tempo das coisas, as circunstâncias que se cruzam connosco e todos aqueles movimentos da vida que nenhuma quantidade de esforço consegue comandar.
Tenho fé em Deus e acredito profundamente que existem caminhos que só Ele sabe alinhar. Não uso essa fé para ficar parada à espera que a vida resolva aquilo que me compete resolver. Para mim, confiar nunca foi sobre deixar de fazer a minha parte. Mas antes, fazê-la com toda a consciência que consigo e reconhecer o momento em que preciso de abrir as mãos e deixar de tentar controlar aquilo que já não me pertence.
Isso continua a ser difícil para mim.Entregar é uma palavra bonita até termos realmente alguma coisa importante para entregar. Um sonho, um projecto, uma mudança, uma decisão e uma parte da nossa vida que desejamos profundamente que resulte. Nesses lugares percebemos como é exigente dizer a Deus: eu fiz aquilo que estava nas minhas mãos, agora confio o resto a Ti.
Tenho aprendido que a esperança também precisa de espaço para respirar. Não posso exigir de mim uma fé perfeita todos os dias. Posso ter dúvidas e medo e mesmo assim continuar. Posso não compreender o propósito de determinadas coisas e continuar a escolher aquilo que reconheço como verdadeiro para mim.
Quando olho para a minha existência e para o Bem-Me-Quero, percebo que muita coisa bonita nasceu precisamente assim: primeiro houve uma ideia, uma vontade, uma palavra, um pequeno passo. Só muito depois consegui perceber aquilo que alguns desses passos estavam a construir.
Por isso continuo.Faço a minha parte com amor. Trabalho naquilo em que acredito. Cuido daquilo que quero fazer crescer. Tento não perder de vista a pessoa que quero ser enquanto procuro chegar aos lugares onde quero estar. E, quando chego ao limite daquilo que consigo fazer, entrego.
Não sei o destino de todos os caminhos que estou hoje a construir.
Preciso de continuar suficientemente próxima de mim para reconhecer aquilo que me faz sentido, suficientemente consciente para mudar quando a realidade me mostrar que é necessário e suficientemente ligada à minha fé para aceitar que existem respostas que não chegarão quando eu quero.
Faz a tua parte com amor e fé, depois entrega. Há caminhos que só Deus sabe alinhar e respostas que chegam no tempo certo. É assim que tenho escolhido continuar a construir a minha vida. E é também assim que continuo a construir o Bem-Me-Quero: com os pés na realidade, o coração inteiro naquilo que faço e uma parte de mim entregue àquilo que ainda não consigo ver.
Bárbara Pereira
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