Nem tudo na nossa vida é bonito. Nem todos os dias conseguimos sentir amor, luz e paz dentro de nós. E hoje quero falar sobre uma emoção que tantas vezes tentamos esconder, controlar depressa ou considerar incompatível com a pessoa que queremos ser: a raiva.
A raiva de algo que nos magoou, de uma injustiça, de uma situação que nunca deveria ter acontecido. A raiva que aparece quando queremos perdoar e percebemos que ainda não sabemos como, ou quando uma parte de nós até gostaria de voltar a confiar, a acreditar, a entregar-se da mesma forma, enquanto outra pergunta se ainda tem recursos para voltar a dar tudo aquilo que já deu. E existe também uma raiva mais silenciosa e difícil de admitir, aquela que sentimos de nós próprias.
Pelas escolhas que fizemos, pelas decisões que tomamos, pelas vezes que tentamos novamente, pela esperança que mantivemos e por termos acreditado que alguma coisa poderia ser diferente.
Só que a raiva não precisa de ser transformada imediatamente em culpa.
Do ponto de vista psicológico, é uma emoção humana e tem uma função. Pode surgir quando sentimos uma injustiça, quando alguma necessidade importante não foi respeitada, quando nos sentimos ameaçadas ou quando os nossos limites foram ultrapassados. O bloqueio não está simplesmente em senti-la. Importa aquilo que fazemos quando ela chega. Podemos sentir raiva sem magoar alguém, sem agir impulsivamente e sem permitir que essa emoção decida tudo por nós. Sentir e agir são coisas completamente diferentes.
E eu gosto de levar esta compreensão também para a espiritualidade.
Ser espiritual não pode obrigar-nos a viver numa espécie de estado permanente de serenidade. Não quero uma espiritualidade que me ensine a sorrir quando estou zangada, a chamar “aprendizagem” a tudo aquilo que me feriu ou a apressar um perdão para provar que tenho luz dentro de mim. Quero uma espiritualidade onde caiba a minha humanidade inteira, onde eu possa sentar-me com aquilo que sinto e perguntar: o que é que esta raiva está a tentar mostrar-me?
Pode estar a mostrar-me um limite que permiti que fosse ultrapassado vezes demais. Uma situação que me feriu mais profundamente do que consegui admitir. Uma necessidade que ignorei. Uma escolha que já não quero repetir. Pode até estar a revelar que continuo a responsabilizar-me por alguma coisa que nunca esteve inteiramente nas minhas mãos.
A raiva dirigida a nós próprias merece um cuidado especial. É fácil olhar para trás com aquilo que sabemos hoje e condenar a mulher que decidiu com os recursos, os sentimentos e a esperança que tinha naquele momento. Podemos desejar ter escolhido diferente sem transformar essa escolha numa sentença contra nós.
Podemos reconhecer onde tivemos responsabilidade e, ao mesmo tempo, deixar de carregar culpas que pertencem às escolhas e aos comportamentos de outras pessoas.
Também não acredito que todas as emoções precisem de ser bonitas para serem legítimas. A tristeza não precisa de se transformar rapidamente em gratidão, o medo não precisa de ser imediatamente vencido pela fé e a raiva não precisa de desaparecer para provarmos que somos pessoas de paz.
Há emoções que precisam primeiro de ser escutadas para depois conseguirmos perceber o que fazer com aquilo que nos estão a dizer.
Perdoar, quando fizer sentido para nós, também não deveria nascer da obrigação de sermos “boas pessoas”. Podemos precisar de tempo, perdoar sem voltar a oferecer o mesmo acesso à nossa vida, encontrar paz sem regressar ao lugar onde os nossos limites foram ultrapassados. E podemos compreender alguém sem voltar a disponibilizar os mesmos recursos emocionais que um dia demos.
Hoje, se existe raiva dentro de ti, não te peço que a alimentes nem que deixes que ela conduza os teus passos. Peço apenas que não tenhas vergonha dela. Escuta-a. Percebe onde dói, aquilo que está a proteger e qual o limite que está a tentar devolver-te.
A luz que procuramos dentro de nós não precisa de existir apenas nas emoções bonitas, também pode estar na coragem de olhar para aquilo que dói sem fugir, reconhecer aquilo que não foi justo e escolher, a partir daí, cuidar melhor de nós.
Sentir raiva não retira jamais luz à nossa alma. Por vezes, é precisamente a nossa alma a lembrar-nos de que alguma coisa ultrapassou aquilo que o nosso coração podia continuar a aceitar.
E se posso partilhar contigo alguma coisa que a vida me ensinou, é isto: não tomes decisões importantes enquanto a raiva estiver a falar mais alto do que tu. Dá-te tempo. Respeita o que estás a sentir e não te obrigues a resolver naquele instante aquilo que pode esperar até voltares a encontrar alguma serenidade dentro de ti. Não há problema nenhum em dizer: “Hoje não estou em paz. Hoje não estou bem. Hoje não quero falar. Hoje preciso de estar sozinha.” Precisamos de começar a tornar isto normal nas nossas vidas, sem culpa, sem justificações intermináveis e sem sentir que os outros têm o direito de exigir de nós uma disponibilidade emocional que naquele momento não temos. Pedir espaço também é colocar um limite. E respeitar o nosso tempo emocional também é uma forma de cuidarmos de nós e de evitarmos tomar decisões a partir de uma emoção que ainda precisa de ser compreendida.
Bárbara Pereira
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