Há uma previsão que posso fazer sobre a tua vida sem precisar de saber como estará o céu amanhã: o tempo vai passar.Vai passar enquanto tens medo, enquanto ganhas coragem, enquanto decides, enquanto adias, enquanto tentas perceber se estás preparada, enquanto esperas pelo momento certo e enquanto continuas a dizer a ti própria que um dia vais fazer aquilo que há tanto tempo desejas fazer.
O tempo passa sempre, de qualquer maneira.
Tenho pensado na quantidade de medos que vamos agarrando aos nossos passos. Alguns nasceram de experiências que nos magoaram, outros de escolhas que não correram como esperavamos, de portas que se fecharam, de pessoas que nos desiludiram, de tentativas onde colocamos tanto de nós e acabamos por regressar com menos confiança do que aquela que levavamos quando começamos.
O bloqueio interno começa quando aquilo que aconteceu numa parte da nossa história ganha poder para decidir aquilo que fazemos em todas as seguintes.
Levamos o medo de uma relação para outra, a insegurança de uma experiência profissional para uma nova oportunidade, a memória de um fracasso para um projecto que ainda nem começou. Uma palavra que alguém nos disse anos atrás continua a aparecer quando precisamos de acreditar em nós. Uma tentativa que correu mal transforma-se numa voz que pergunta se vale a pena tentar novamente. E vamos carregando malas de uma viagem antiga para destinos onde talvez já não precisassemos delas.
Compreendo profundamente essa necessidade de protecção. Depois de nos magoarmos, queremos evitar outra queda. Depois de perdermos, queremos garantias. Depois de descobrirmos que nem tudo depende da nossa vontade, começamos a desejar certezas antes de voltar a arriscar.Só que a vida oferece muito poucas. E enquanto esperamos pela certeza absoluta de que não vamos sofrer, falhar, arrepender-nos ou perder alguma coisa, podemos acabar por perder precisamente aquilo que nunca conseguimos recuperar: tempo.
Existe uma ilusão silenciosa de que teremos sempre mais. Mais um ano para começar, outro mês para decidir, uma próxima oportunidade para dizer aquilo que sentimos. Um dia melhor para escrever o livro, mudar de trabalho, fazer a viagem, começar o projecto, pedir ajuda, cuidar de nós, aprender alguma coisa nova ou simplesmente viver de uma forma mais próxima daquela que desejamos.Pensamos “depois”.
E o depois vai-se transformando em vida.
Não vos escrevo isto para criar pressa. Tenho aprendido que existem decisões que precisam de maturação e fases em que parar é exactamente aquilo de que precisamos. Respeitar o nosso tempo continua a ser essencial.
O que me inquieta é outra coisa: confundirmos respeito pelo nosso tempo com adiamento provocado pelo medo e sabes, são coisas tão diferentes. Um diz-nos “ainda preciso de cuidar de mim antes deste passo”. O outro repete “um dia” durante anos.
Os bloqueios que carregamos merecem ser compreendidos. Psicologicamente, faz sentido que o nosso cérebro utilize experiências anteriores para tentar antecipar riscos e proteger-nos. Só que aquilo que um dia nos protegeu também pode tornar-se uma prisão quando continua a comandar escolhas num presente que já não é igual ao passado.
Nós mudámos. Temos outros recursos, outra consciência, outras possibilidades e, em muitos casos, uma capacidade que ainda não existia quando aquela ferida nasceu.
A nossa história merece ser escutada, não precisa de receber autoridade absoluta sobre o nosso futuro.
Também na espiritualidade encontro muito desta aprendizagem. Fé, para mim, não é acreditar que nada de mau voltará a acontecer. É conseguir continuar disponível para a vida mesmo sabendo que não controlo tudo aquilo que ela me poderá trazer. É confiar que tenho dentro de mim recursos para atravessar o que vier e manter o coração suficientemente aberto para reconhecer aquilo que merece ser vivido.
Não quero chegar ao fim de determinados capítulos e perceber que foi o medo de repetir o passado que me impediu de escrever um capítulo diferente.
Quero levar comigo aquilo que aprendi, os limites que construí, a consciência que ganhei e a sabedoria que algumas experiências me deixaram. O resto não precisa de viajar comigo para todo o lado.
Existem medos que merecem ser ouvidos. Outros já cumpriram a sua função e precisam que lhes agradeçamos a tentativa de nos proteger antes de continuarmos sem eles.
A vida não nos pede que avancemos sem medo. Pede apenas que não entreguemos ao medo todos os nossos próximos passos.
Por isso, se existe alguma coisa que desejas profundamente fazer, pergunta a ti própria o que realmente te está a impedir. Se precisas de tempo, dá-to. Se precisas de ajuda, procura-a. Se precisas de preparar melhor o caminho, prepara-o. Se descobrires que estás apenas à espera de deixar de ter medo para começar, lembra-te de uma coisa muito simples:o medo também pode continuar enquanto tu avanças.
Não temos uma quantidade ilimitada de dias para viver tudo aquilo que continuamos a guardar para “um dia”. Não sabemos quanto tempo temos, e essa consciência não precisa de ser triste. Para mim, torna a vida mais preciosa.
Faz-me querer estar mais presente.
Arriscar com consciência, dizer aquilo que importa, não adiar todos os sonhos à espera de uma versão minha que já não tenha medo de nada e deixar de carregar para cada lugar novo todas as coisas que aconteceram nos lugares antigos.
Previsão do tempo: ele passa.Que, enquanto passa, não encontre apenas os nossos medos a viver a vida que poderia ter sido nossa.
Bárbara Pereira
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