A frustração também educa quando existe amor suficiente para a acompanhar.

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 18:10

Já escrevi muitas vezes sobre aquilo que nos pode faltar na infância. O amor que não chegou como precisavamos, o colo que não encontramos, as palavras que ninguém soube dizer, a segurança de sermos vistas, ouvidas e compreendidas por aqueles que deveriam ter sido o primeiro lugar seguro da nossa vida.

 

Conheço bem as marcas que essas ausências podem deixar e nunca teria coragem de romantizá-las, como se uma criança precisasse de sofrer para se tornar um adulto mais forte. Nenhuma criança deveria precisar de aprender tão cedo a cuidar sozinha das próprias feridas. Hoje, no entanto, dei por mim a pensar no outro extremo. Naquilo que acontece quando uma criança cresce tendo tudo.

E quando digo tudo, não estou a falar de amor. Continuo a acreditar que mimo nunca é demais quando mimo significa afecto, presença, ternura, atenção, disponibilidade emocional, aquele abraço onde uma criança aprende silenciosamente que existe um lugar no mundo onde pode pousar o coração. Não acredito em economizar amor para preparar alguém para a dureza da vida. A vida encarrega-se suficientemente bem dessa parte sem precisar da nossa ajuda.

Falo de outra coisa.

Falo de crescer sem conhecer suficientemente a frustração. De querer e receber. Pedir e conseguir. Chorar e ver alguém correr imediatamente para retirar do caminho aquilo que incomoda. Falo de crianças que raramente precisam de esperar, ceder, negociar, perder, tentar novamente, encontrar uma solução ou simplesmente descobrir que existem dias em que queremos muito uma coisa e, ainda assim, não podemos tê-la.

Tenho pensado nisto ao observar a dificuldade que tantos adultos parecem ter em lidar com qualquer coisa que contrarie aquilo que desejam. Pessoas que amuam quando ouvem um não, que se irritam quando alguém pensa diferente, que interpretam um limite como rejeição, que precisam de controlar as circunstâncias para conseguirem permanecer emocionalmente tranquilas. Conexões onde qualquer divergência se transforma numa guerra, trabalhos onde uma contrariedade parece insuportável, uma espera que se transforma em impaciência, um desejo que rapidamente passa a ser vivido como um direito.

E pergunto-me em que momento começamos a confundir proteger uma criança com retirar-lhe todas as oportunidades de descobrir que consegue sobreviver ao desconforto.

Há uma parte desta reflexão que pode incomodar e compreendo que incomode. Quando olho para a minha própria história, para tudo aquilo que me faltou e para aquilo que fui obrigada a procurar dentro de mim demasiado cedo, chego por vezes a um pensamento estranho: dentro de tudo o que uma infância difícil nunca deveria ter sido, houve recursos que precisei de construir precisamente por não ter quem os construísse por mim. Aprendi a procurar saídas. Aprendi a suportar esperas. Aprendi que nem sempre alguém viria resolver. Aprendi a continuar quando aquilo que queria não acontecia. E paguei emocionalmente um preço demasiado alto por algumas dessas aprendizagens.

Não desejaria esse caminho a criança nenhuma, mas também não desejaria o extremo oposto.

Uma infância onde todos os obstáculos são retirados pode deixar alguém tão despreparado para a vida quanto uma infância onde ninguém esteve presente para ajudar a atravessá-los. Há uma distinção entre acompanhar uma criança enquanto ela sofre e impedir que ela alguma vez sofra; entre ajudá-la a encontrar uma solução e entregar-lhe sempre a solução pronta; entre acolher a tristeza de ouvir um não e transformar esse não num sim apenas para que deixe de estar triste.

Podemos abraçar uma criança enquanto ela chora sem mudar a resposta.

Podemos compreender a frustração de um adolescente sem lhe entregar aquilo que exige.

Podemos amar profundamente alguém e permitir que descubra que o mundo também tem limites.

Há aprendizagens que só acontecem quando alguma coisa não corre como queríamos. É nesses momentos que começamos a conhecer a paciência, a criatividade, a capacidade de adaptação, a humildade de perceber que os outros também têm vontades, necessidades e limites. É ali que descobrimos uma coisa fundamental para a vida adulta: sentir frustração não significa que alguma coisa esteja errada connosco. É apenas a sensação de estarmos vivos num mundo que nunca conseguirá obedecer permanentemente aos nossos desejos.

Nenhuma infância determina inteiramente o adulto em que nos transformamos. Podemos vir de lugares profundamente feridos e escolher não ferir. Podemos ter recebido tudo e aprender mais tarde a lidar com aquilo que nos falta. Crescer continua a ser, em algum momento, assumir responsabilidade pela pessoa que estamos a construir com aquilo que recebemos e com aquilo que não recebemos.

Por isso, se pudesse escolher aquilo que daria a uma criança, não escolheria nem a falta nem um mundo permanentemente dobrado à sua vontade.

Daria amor. Muito. Colo até quando já fosse grande demais para caber nele. Presença, segurança, palavras bonitas, espaço para chorar e liberdade para ser exatamente quem é.

E, no meio de todo esse amor, deixaria também alguns caminhos por desbravar.

Algumas respostas por encontrar.
Algumas esperas.
Alguns nãos.
Algumas quedas das quais pudesse levantar-se sabendo que havia uma mão por perto, mas descobrindo primeiro a força da sua própria alma.

Ter tudo às vezes faz-nos não ter necessidade de procurar nada dentro de nós.

E chegar à vida adulta sem saber onde procurar quando o mundo finalmente nos tira alguma coisa pode ser uma forma de pobreza que nenhuma abundância conseguiu evitar.

Bárbara Pereira 

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