Não é sobre precisar do outro. É sobre aprender que posso ficar comigo sem deixar de existir. Durante muito tempo, eu percebia logo no início quando uma relação não ia dar certo. Eu via os sinais. Eu sentia no corpo. Eu sabia.
Mas ficava.
Não porque acreditava que era amor verdadeiro, mas porque tinha medo cortante de ficar sozinha.
Medo de mais uma pessoa ir embora.
Medo de confirmar a velha crença: “ninguém fica”.
O meu corpo tremia.
A ansiedade tomava conta.
A mente entrava em alarme.
E eu aceitava o que não me fazia bem só para não sentir o vazio do abandono.
A ferida do abandono não nasce no presente e nem sempre é consciente. Nasce quando, na infância, aprendemos que as pessoas vão embora. Que o amor é instável. Que o afeto pode desaparecer sem aviso.
Então, em adultas, confundimos amor com ansiedade.
Confundimos vínculo com medo.
Confundimos permanência com prova de valor.
E é por isso que ficamos onde não somos cuidadas.
Aceitamos migalhas emocionais.
Ficamos em trabalhos que nos adoecem.
Em relações que nos diminuem.
Em lugares onde já não cabemos.
Tudo porque o abandono dói mais do que a ausência de amor próprio.
🧠 Para a Psicologia, esta ferida nasce quando, em algum momento da vida, sobretudo na infância, sentimos que não podíamos contar emocionalmente com quem devia cuidar, proteger ou permanecer.
Nem sempre houve uma partida física.
Muitas vezes, o abandono foi emocional: ausência, frieza, invalidação, negligência, silêncio.
E esta ferida não fica no passado.
Ela cresce connosco. Apenas muda de cenário.
💔 Nas relações amorosas
Aparece quando:
– Ficas onde já não és tratada com amor, só para não ficares sozinha.
– Aceitas migalhas como se fossem presença.
– Vives em alerta constante, com medo que o outro vá.
– Confundes intensidade com ligação.
– Lutas para ser escolhida, como se o amor fosse um prémio.
O corpo treme, a ansiedade cresce, o medo de perder sobrepõe-se à verdade:
não é amor que te prende. É medo de ficar.
🏠 Na família
A ferida surge quando:
– Passas a vida a tentar agradar quem nunca te viu.
– Aceitas desrespeito para não perder lugar.
– Carregas culpas que nunca foram tuas.
– Tentas manter vínculos que só sobrevivem à custa da tua anulação.
Aqui, o medo não é de perder alguém.
É de deixar de ter lugar.
🫂 Nas amizades
Manifesta-se quando:
– Dá demais, cuida demais, perdoa demais.
– Silencias o que sentes para não “dar trabalho”.
– Estás sempre disponível com medo de seres esquecida.
– Permaneces em relações onde só tu seguras.
Não é generosidade excessiva.
É medo de ser deixada.
💼 No trabalho
A ferida aparece quando:
– Aceitas sobrecarga, abuso e desvalorização.
– Tens medo de dizer não.
– Confundes profissionalismo com autoanulação.
– Aguentas ambientes tóxicos para não perder o lugar.
Aqui, o abandono veste-se de medo de exclusão, rejeição e inutilidade.
A Psicologia com Alma, explica de forma clara que a ferida do abandono não é carência de amor do outro.
É falha de segurança interna.
Quem cresce sem sentir permanência emocional aprende, em silêncio, que pode ser deixada a qualquer momento. E então, na vida adulta, tenta garantir a permanência dos outros à custa de si mesma.
Por isso:
– Fica quando devia ir.
– Cala quando devia falar.
– Aguenta quando devia sair.
Não por fraqueza.
Mas por medo de perder o vínculo.
A cura da ferida do abandono não é aprender a manter pessoas. É aprender a não te abandonares a ti para que o outro fique.
É perceber que:
– Quem fica por obrigação não fica por amor.
– Quem ama não exige que te partas para permanecer.
– Quem se vai, vai por razões próprias. Isso não define o teu valor.
A verdadeira segurança não vem de quem fica. Vem de saberes que tu ficas contigo, mesmo quando alguém vai.
E isso muda tudo.
💔 Há um dia em que algo muda:
O dia em que percebemos que:
Não é preciso lutar para merecer amor.
Não é preciso dar provas para alguém ficar.
Não é preciso sofrer para ser escolhida.
E muito menos é preciso abandonar-nos para impedir que alguém vá embora.
Quando alguém escolhe não ficar, isso não define o nosso valor.
Define a história do outro.
Define os limites do outro.
Define aquilo que o outro consegue ou não sustentar.
Não é sobre o nosso coração.
🌱 A cura da ferida do abandono começa aqui
Quando eu deixo de implorar permanência.
Quando deixo de aceitar menos para não sentir o vazio.
Quando entendo que ficar sozinha por um tempo é menos doloroso do que ficar mal acompanhada por uma vida inteira.
A ferida do abandono é das mais difíceis de curar.
Porque toca no nosso medo mais profundo:
o de não sermos escolhidas.
Mas a cura começa quando, pela primeira vez, somos nós a escolher-nos.
✍️ Reflexão:
– Em quantos lugares da tua vida tu ficas mais por medo do que por amor?
– Onde tens calado a tua verdade só para não perder alguém?
– Que migalhas tens aceitado com medo de ficares sozinha?
– Quantas vezes confundiste ansiedade com amor?
– Em que momentos te abandonaste a ti para que o outro ficasse?
– O que mudaria na tua vida se soubesses, por dentro, que já és suficiente mesmo que alguém vá?
Bárbara Pereira
Psicóloga por vocação, terapeuta por alma 🤍✨
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