Hoje vamos falar sobre uma coisa que pode ser um pouco difícil de escutar: a nossa mania de querer controlar tudo.
E digo “nossa” porque acredito que muitas de nós fomos aprendendo a viver assim. Organizamos, planeamos, antecipamos, tentamos perceber aquilo que poderá acontecer e procuramos preparar-nos para cada possibilidade. De alguma forma, fomos construindo a sensação de que, se conseguirmos ter tudo minimamente controlado, estaremos mais seguras.
E há coisas que precisam realmente de estrutura. Há decisões que exigem planeamento, responsabilidades que não podem ser entregues ao acaso e partes da nossa vida que dependem das escolhas que fazemos todos os dias.
O bloqueio começa quando tentamos aplicar essa mesma lógica a tudo. Queremos controlar aquilo que vai acontecer, a forma como as outras pessoas vão agir, os resultados das nossas escolhas, o tempo que as coisas vão demorar, as respostas que vamos receber, os caminhos que se vão abrir, aquilo que poderá correr mal e até aquilo que ainda nem sequer aconteceu.
Queremos garantias antes de avançar. Queremos saber que vai resultar antes de tentar.
Queremos conhecer o destino antes de aceitar fazer o caminho. E a vida raramente nos oferece esse tipo de contrato.
Há demasiadas variáveis que não dependem de nós. Podemos fazer tudo aquilo que está ao nosso alcance e, ainda assim, alguma coisa mudar. Podemos preparar cuidadosamente um caminho e descobrir uma curva que não estava no mapa. Podemos ter um plano maravilhoso numa segunda-feira e chegar a quarta-feira com a vida a dizer: “Muito bonito. Agora vamos fazer de outra maneira.”
É precisamente quando perdemos essa sensação de controlo que muitas vezes aparecem a ansiedade, o stress, a frustração e o desânimo. A cabeça começa imediatamente a procurar soluções para acontecimentos que ainda não existem, cria cenários, tenta antecipar respostas e trabalha horas extraordinárias para nos devolver uma segurança que, naquele momento, ninguém consegue garantir. E talvez exista outra forma de segurança que temos praticado muito menos.
A fé.
Independentemente daquilo em que acreditas. Para algumas pessoas será Deus. Para outras, o Universo, a espiritualidade, a vida ou alguma coisa maior do que aquilo que conseguimos compreender. E para quem não acredita em nada exterior a si, existe ainda uma fé profundamente importante: acreditar em si própria.
Acreditar que não precisas de saber antecipadamente tudo aquilo que vai acontecer para seres capaz de lidar com aquilo que acontecer.
Confiar na mulher que estará lá para resolver quando chegar o momento.
Devemos aprender que há diferença entre prepararmo-nos para a vida e tentarmos impedir que a vida nos surpreenda.
Podemos organizar aquilo que depende de nós. Podemos tomar decisões conscientes, fazer planos, pensar no futuro e criar estrutura. E depois precisamos de deixar algum espaço vazio para aquilo que não conseguimos prever.
Esse espaço assusta, principalmente quando passamos anos a associar controlo a segurança.
Desapegar do controlo não significa abandonar a responsabilidade pela nossa própria vida. Contudo, é reconhecer onde termina aquilo que podemos fazer e onde começa aquilo que teremos de descobrir à medida que caminhamos.
Nem tudo precisa de uma resposta hoje.
Nem todos os caminhos precisam de estar completamente desenhados antes do primeiro passo. Nem todas as incertezas são sinais de que alguma coisa vai correr mal.
Podemos simplesmente ainda não saber.
E aprender a permanecer nesse “ainda não sei” sem tentar desesperadamente preenchê-lo com medo também é uma forma de crescimento.
A vida continuará a trazer acontecimentos que não planeamos, mudanças que não pedimos, pessoas que não conseguimos controlar e respostas diferentes daquelas que imaginámos. A nossa segurança nunca poderá depender exclusivamente de conseguirmos manter tudo isso no lugar.
Pode começar a nascer de outro sítio.
Da confiança de que, quando alguma coisa mudar, saberemos olhar para aquilo que temos diante de nós e encontrar o próximo passo.
Já fizemos isso tantas vezes.
Já resolvemos coisas que nunca imaginámos ter de resolver. Já encontrámos alternativas quando os nossos planos falharam. Já reconstruímos caminhos que pareciam interrompidos. Já fomos capazes de continuar sem saber exatamente como seria o dia seguinte.
E continuamos aqui.
A vida não está a pedir-nos que tenhamos tudo sob controlo. Pode estar apenas a pedir-nos que façamos aquilo que está nas nossas mãos e aprendamos a confiar um pouco mais naquilo que existe dentro delas.
Bárbara Pereira
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