Chega uma altura da vida em que começamos a perceber o cansaço que existe em tentar ser permanentemente uma versão melhor de nós.
Queremos ser mais calmas, mais bonitas, mais seguras, menos ansiosas, menos intensas, mais disciplinadas, mais organizadas, menos emotivas, mais isto, menos aquilo. Há sempre qualquer coisa para corrigir, melhorar ou esconder e, sem percebermos, podemos passar anos a relacionar-nos connosco como se fossemos uma obra eternamente inacabada à espera de merecer aprovação quando finalmente estiver tudo no lugar.
Crescer emocionalmente também me parece ser perceber que nem tudo em nós precisa de ser corrigido.
Há coisas que precisamos, sim, de transformar. Comportamentos que magoam, padrões que repetimos, feridas que acabam por comandar decisões que deveriam pertencer à mulher que somos hoje. Autoaceitação nunca deveria servir de desculpa para permanecermos exactamente iguais enquanto culpamos o mundo pelas consequências das nossas escolhas. Mas existe uma distinção entre querer crescer e viver permanentemente insatisfeita com quem somos.
Podemos reconhecer uma fragilidade sem nos reduzirmos a ela. Podemos perceber que reagimos mal e assumir responsabilidade sem decidir que somos uma má pessoa. Podemos olhar para uma característica nossa que nos trouxe dificuldades e tentar compreendê-la antes de arrancá-la de nós apenas para sermos mais fáceis de aceitar pelos outros.
Há evolução emocional quando conseguirmos dizer: isto também sou eu.
Sou aquilo que já curei e aquilo que ainda me dói. Sou as coisas que faço extraordinariamente bem e aquelas em que continuo a tropeçar. Sou a mulher segura em determinados lugares e a mesma mulher que ainda sente medo noutros. Sou tudo aquilo que aprendi e também aquilo que continuo sem saber.
Aceitarmo-nos não significa desistirmos de crescer. Significa não precisarmos de odiar a pessoa que somos enquanto caminhamos em direção àquela que queremos ser.
E isso muda profundamente a forma como vivemos.
Deixamos de pedir desculpa por cada característica nossa que não cabe nas expectativas de alguém. Começamos a perceber quais críticas merecem reflexão e quais pertencem simplesmente à preferência de quem nos observa.
Aprendemos que nem todas as pessoas vão compreender a nossa maneira de sentir, pensar, amar ou estar no mundo e que passar a vida a adaptar-nos para sermos mais fáceis de 'digerir' também pode ser uma maneira silenciosa de nos abandonarmos.
Maturidade emocional não é chegarmos a um ponto onde nada nos incomoda, onde reagimos sempre correctamente e temos todas as feridas resolvidas. É conseguirmos olhar para aquilo que sentimos sem entregar imediatamente o controlo à emoção. É assumir quando erramos. Pedir desculpa quando magoamos. Colocar limites quando precisamos. Mudar de opinião quando aprendemos alguma coisa nova.
Reconhecer que também podemos ser parte do problema sem transformar essa consciência numa sentença contra nós. E, acima de tudo, conseguir permanecer do nosso lado enquanto fazemos tudo isso.
Há uma paz imensa quando deixamos de passar a vida a tentar provar que merecemos o nosso próprio amor.
Continuaremos a mudar. Ainda vamos descobrir partes nossas que precisam de atenção, cometer erros, voltar a alguns padrões que julgavamos ultrapassados e encontrar versões de nós que ainda não conhecemos. Contudo não precisamos de esperar por uma versão perfeita para finalmente nos tratarmos com carinho.
A mulher que ainda está a aprender também merece amor.
A que se engana também.
A que ainda não conseguiu chegar onde gostaria também. Podemos querer crescer sem transformar a nossa existência numa eterna tentativa de deixar de ser quem somos.
Há coisas em nós que precisam de cura. Outras precisam apenas que finalmente deixemos de lutar contra elas.
P.s. para o teu coração
Não transformes o autoconhecimento numa procura interminável por defeitos que precisas de corrigir.
Bárbara Pereira
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