Antes de adormecer, quero partilhar contigo uma coisa em que estou a pensar: na quantidade de tempo da nossa vida que passamos a tentar alcançar tudo. A desejar que todas as partes do nosso caminho estejam bem, que os sonhos se realizem, que aquilo que ainda falta finalmente chegue e que, a certa altura, possamos olhar à nossa volta e sentir que temos tudo aquilo que desejávamos.
Queremos estabilidade, amor, realização, segurança, saúde, tranquilidade, dinheiro suficiente, relações bonitas, sonhos concretizados e aquela sensação de que finalmente chegamos ao lugar onde tudo está bem. E querer é bonito. Ter expectativas, fazer planos e desejar mais para a nossa vida também nos faz avançar. O bloqueio começa quando acreditamos que só poderemos sentir-nos verdadeiramente felizes quando todas as peças estiverem, ao mesmo tempo, exactamente onde gostaríamos.
A vida não se apresenta assim. Há fases em que estamos realizadas profissionalmente e alguma coisa nos falta no coração. Outras em que temos amor, mas ainda procuramos estabilidade. Há momentos em que finalmente conseguimos aquilo por que tanto lutamos e, precisamente nessa altura, outra parte da nossa vida começa a pedir atenção. Algumas coisas florescem enquanto outras parecem permanecer paradas. Algumas chegam. Outras partem. Umas surpreendem-nos pela beleza e outras ficam muito aquém daquilo que um dia imaginamos.
Nunca vamos ter tudo ao mesmo tempo. E esta ideia, em vez de me parecer triste, começou a parecer-me libertadora.
Quantas vezes estragamos um momento bonito apenas por continuarmos a olhar para aquilo que ainda falta? Quantas coisas que um dia pedimos à vida se tornaram tão habituais que deixamos de reparar nelas enquanto procurávamos a próxima?
Podemos passar anos a dizer que seremos felizes quando isto acontecer, quando aquilo mudar, quando finalmente conseguirmos chegar ali, e entretanto a vida vai acontecendo precisamente no lugar onde estamos.
Não quero deixar de sonhar nem diminuir aquilo que espero do meu caminho. Quero continuar a desejar, construir, mudar e acreditar que ainda existem coisas extraordinárias para viver. Só não quero precisar que tudo esteja bem para conseguir reconhecer aquilo que já está.
A felicidade plena, permanente, sem ausências, preocupações, perdas ou dias difíceis parece-me uma expectativa impossível para uma vida que está constantemente em movimento. Haverá altos e baixos, quedas e recomeços, dias em que nos sentimos inteiras e outros em que alguma coisa nos falta. E no meio de tudo isso estará a vida real.
Viver também é aprender a não esperar pela perfeição para sentir gratidão.
Olhar para o momento presente e perceber que, mesmo não tendo tudo, há alguma coisa aqui que merece ser sentida, vivida e agradecida antes que também ela se transforme numa saudade.
Bárbara Pereira
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