Desde que sou criança, lembro-me de ter o cabelo absurdamente comprido. Não comprido. Muito comprido. Daqueles que quase precisavam de código postal próprio.
Sempre amei o meu cabelo gigante, sempre foi parte da minha identidade, quase como se estivesse colado à minha nuca com as palavras:
“Não mexam. É sagrado.”
Sempre que entrava num cabeleireiro, o meu maior pânico não era as brancas, não era a cor, era o corte, era ouvir a frase maldita:
“Vamos só tirar um bocadinho.”
E “um bocadinho”, para mim, significava:
“Vou sair daqui emocionalmente ferida, obrigada.”
Eu dizia “só um dedo, por favor”, mas por dentro chorava como quem está a sacrificar uma relíquia familiar.
E hoje percebo: será que era realmente o cabelo que eu não queria perder?
Ou será que aquilo era o único pedaço de mim que eu conseguia controlar, segurar, manter?
Será que o cabelo era só… cabelo?
Ou era a parte de mim que nunca mudou, para eu acreditar que também não precisava mudar?
E foi com esta epifania capilar-existencial que eu fiz aquilo que nenhuma versão antiga minha faria:
Fui cortar o cabelo.
E não 3 cm.
15 centímetros.
Sem medo.
Sem drama.
Sem vela de luto acesa.
E foi aí que começou o verdadeiro colapso emocional controlado.
Há decisões pequenas.
Há decisões grandes.
E depois há decisões do género:
“Corta o máximo que respeite o enquadramento facial.”
É aqui que percebemos que a mulher não foi ao cabeleireiro.
A mulher foi renascer.
Porque sejamos honestas: nenhuma pessoa emocionalmente estável olha para o espelho e decide amputar 15 cm de cabelo numa quinta-feira qualquer.
15 cm não é corte.
É golpe de estado capilar.
É a alma a dizer:
“Chega. O passado está-me a pesar na nuca.”
✂️ Os 15 cm que caíram não eram cabelo. Eram história.
Porque cortar 15 cm quando sempre tiveste cabelo XXL é quase um ritual xamânico.
É libertar:
• peso antigo
• crenças agarradas
• versões tuas que já não te servem
• aquele apego emocional que chamavas “estilo” mas era só medo de mudar
• “Já não vou carregar fios que já foram testemunhas de erros que não quero repetir.”
• “Não preciso de cabelo para parecer forte.”
• “Preciso é de coragem para parecer eu.”
• “Se a vida pede leveza… eu entrego centímetros.”
As pessoas dizem:
“Ah, cortaste o cabelo?”
E tu, com aquele olhar de quem acabou de renascer e está a disfarçar:
“Não, amor… eu cortei uma encarnação inteira.”
A verdade sarcástica que ninguém admite: eu passei anos a proteger o meu cabelo como se fosse um património mundial da UNESCO.
E agora?
Corto 15 cm como quem diz: “Olha, alma… actualiza-me.”
Porque, sejamos sinceras: se fosse só estética, eu teria mantido tudo igual.
15 cm é a tesoura a fazer terapia por mim.
E o mais bonito? Eu continuo eu.
Continuo com cabelão.
Continuo feminina, intensa, sedutora, dramática quando preciso.
Mas agora… mais leve.
Mais livre.
Mais alinhada com a mulher que estou a tornar-me aos 41.
Eu não cortei quem eu sou.
Cortei o que já não preciso carregar.
E, sinceramente?
Foi a primeira vez que senti que o meu reflexo diz a verdade.
🌫️ A verdadeira razão pela qual cortei 15 cm: o cabelo não estava estragado. A vida é que estava pesada.
Há quem corte as pontas. Eu corto fases inteiras.
E vou ser sincera: ao ver os 15 cm no chão, tive uma pequena epifania espiritual misturada com um ataque de riso nervoso.
Pensei:
“Pronto. Está feito. Se houver entidade presa nas pontas… já foi.”
Sim, porque 15 cm já não é corte.
É exorcismo premium.
Tu não libertas apenas a energia velha.
Libertas também:
• expectativas alheias
• ansiedades acumuladas
• frustrações capilares e emocionais
• dois ou três traumas escondidos entre madeixas
E tudo isto por 20 euros a mais no serviço “corte + brushing”.
Um luxo.
Eu não cortei 15 cm de cabelo.
Cortei 15 cm de:
— expectativas que me cansavam
— pessoas que me pesavam
— versões minhas que me atrasavam
Se isto não é evolução emocional… não sei o que é.
Deixa-me dizer-te outra verdade ancestral, daquelas que só quem vive com a alma acordada entende: tu não cortaste o cabelo. Tu libertaste um espírito antigo que vivia preso nas pontas.
Aquele pedacinho de ti que carregava memórias, pesos, medos, pensamentos repetidos, restos de dores que já nem doíam mas ainda habitavam ali, quietas, à espera de serem despedidas com dignidade.
Cortar 15 cm não foi estética.
Foi exorcismo emocional de luz.
Foi libertar tudo aquilo que já cumpriu a missão, e que estava a pedir passagem para sair.
O cabelo cresce, amor… mas aquilo que eu libertei hoje? Isso não volta. Porque não era para voltar. Era para ir.
Há uma coisa que eu preciso mesmo de te dizer, com a honestidade crua de quem acabou de largar 15 cm de passado: há cortes na vida que demoram anos a acontecer. Anos.
Tu sabes que são inevitáveis, sabes que um dia vão chegar, mas continuas a adiar como quem muda de passeio para não encontrar o destino pela frente, ou aquela pessoa que não gostas.
É difícil, claro que é. Cortar é sempre uma pequena morte. Sempre. Traz luto, traz saudade, traz aquele aperto de “será que devia?”. Mas depois acontece o milagre silencioso. De um dia para o outro, e acredita em mim, é mesmo assim, tu acordas e dizes: já deu, já foi, já não quero, já não me identifica, quero ser mais leve. E o corte… acontece.
E esse corte, amor, raramente é sobre cabelo. Nunca é só sobre aquilo que contamos. É sobre coisas que já não nos faziam bem. Pessoas que podíamos até gostar muito, mas que já não caminhavam ao mesmo ritmo que nós. Lugares onde deixámos de caber. Versões nossas que já não sustentam a mulher que estamos a tornar.
E sim, cortar dói. Sempre. Porque toda a rotura dói, mesmo quando é necessária. Mas é isso que define um corte: ele é inevitável. Mais dia, menos dia, a vida vai empurrar-te para ele. E quanto mais cedo o fizeres, mais cedo ficas leve.
Mas não te enganes: nenhum corte precisa de ser impulsivo, dramático ou feito à força. Os cortes verdadeiros são subtis. Constroem-se na caminhada. São aqueles que a alma prepara antes de o corpo ter coragem. Não são instantâneos. Não são porque sim.
São conscientes, porque só o que é consciente nos devolve a verdade.
E deixa-me terminar com esta verdade que devia vir escrita nos espelhos dos salões de beleza: quando uma mulher decide mudar o cabelo, seja 5, 10 ou 15 centímetros, o mundo devia preparar-se. Porque ninguém mexe na própria coroa sem antes ter mexido na alma. Se ela teve coragem para cortar o que era seguro, confortável e familiar… imagina o que ela é capaz de fazer ao que já não lhe serve na vida. Quando o cabelo muda, querida, não é estética. É aviso.
Ela já mudou por dentro. E agora, sim… está pronta para mudar o mundo. ✂️🔥🌻
Bárbara Pereira ✍️
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