Há uma frase que anda por aí a circular como se fosse um passe VIP para a iluminação espiritual instantânea: “Gratidão é tudo.”
E eu juro que cada vez que a ouço, o meu lado terapeuta respira fundo… e o meu lado Mulher Real responde em pensamento:
— Sim, claro. Gratidão é tudo. Agora passa-me também a receita para curar traumas com um post-it.
Porque vamos ser honestas, com amor e sarcasmo: a gratidão é bonita, é importante, eleva, organiza a alma… mas não substitui terapia, não põe limites por nós, não nos tira de padrões tóxicos, não paga contas, e muito menos resolve feridas antigas com chá de camomila e um “universo, confio”.
Gratidão sem consciência é só positividade (tóxica) a fingir que está tudo bem.
E eu acredito na gratidão. Acredito mesmo.
Mas acredito numa gratidão adulta. Daquelas que vem depois da queda, depois do choro no chão da casa de banho, depois da conversa difícil, depois do “chega”, depois da escolha que dói, depois da terapia que desmonta e reconstrói.
Não naquela gratidão usada como anestesia emocional para evitar sentir.
Porque há gente a dizer “gratidão” enquanto engole abuso.
Há quem diga “gratidão” enquanto se abandona.
Há quem diga “gratidão” para não ter de dizer “isto dói”.
E isso, amor… não é espiritualidade.
É fuga com filtro de luz dourada.
Então sim, eu digo “gratidão”… mas só depois de passar pela verdade.
Só depois de chorar o que doeu.
Só depois de aprender o que foi duro.
Só depois de pôr limites onde antes eu só engolia silêncios.
Versão Mulher Real da frase:
“Gratidão é tudo… depois da terapia, dos limites, do choro bem feito, e da coragem de não fingir que está tudo bem.”
E aí sim.
A gratidão deixa de ser slogan.
E passa a ser raiz.
Porque esta coisa da “gratidão é tudo” também já me foi atirada à cara como se fosse um comprimido milagroso: toma, engole, não faças perguntas, não sintas muito, não compliques. Gratidão para calar, para silenciar, para maquilhar feridas com purpurinas espirituais.
Tipo: estás mal? Agradece. Foste mal tratada? Agradece. Estás a morrer por dentro? Agradece também, que isso passa. Spoiler: não passa.
O que passa é a paciência para este positivismo de micro-ondas, rápido, artificial e sem nutrientes emocionais.
Eu não quero gratidão para fingir que está tudo bem. Eu quero verdade, ainda que doa. Depois sim, a gratidão vem. Limpa. Consciente. Sem frases feitas nem filtros de beatitude. Já basta de fingir iluminação com lâmpadas fundidas.
E só para terminar, deixa-me dizer-te, há também aquele detalhe delicioso: muita gente usa a “gratidão” como fuga elegante à responsabilidade emocional. Em vez de olhar para padrões, traumas, escolhas erradas e repetições dolorosas… agradece. Em vez de fazer terapia… agradece.
Em vez de pedir perdão, mudar de atitude ou impor limites… agradece outra vez. É quase um escudo espiritual: “não me confrontes, estou grato”. Só que a alma não se engana. Ela sabe quando a gratidão é fruto de consciência, e quando é só uma cortina dourada a esconder o entulho emocional por arrumar. E eu, cá para mim, prefiro uma alma em obras do que um altar montado em cima do caos.
Bárbara Pereira ✍️
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