Não sei se alguma vez deste um salto tão grande que te deixou a tremer por dentro. Não sei se alguma vez tomaste a maior decisão da tua vida com as mãos a suar, o peito apertado, a ansiedade a gritar… e, ao mesmo tempo, com uma calma estranha no fundo da alma a dizer: “É isto. Não há volta atrás.”
Porque é uma coisa muito confusa de explicar: ter medo e certeza a morar na mesma respiração.
Sentir pânico e alinhamento no mesmo segundo.
Chorar… mas não por arrependimento. Chorar porque o corpo ainda está a largar o que a alma já decidiu.
Há decisões que não chegam com coragem. Chegam com verdade.
E a verdade assusta muito mais do que a falta de coragem.
Disseram-me que eu estava a “recomeçar do zero”. Falaram com aquele tom meio solidário, meio desconfiado, como quem diz: “Coitada… lá vai ela outra vez.”
Mas hoje eu percebo uma coisa com uma clareza que até assusta: não estou a começar do zero. Eu estou a começar do sítio mais verdadeiro que já pisei.
Zero é quando não sabemos quem somos.
Zero é quando vivemos a vida dos outros.
Zero é quando engolimos silêncios, aceitamos menos, ficamos onde já não cabemos só para não incomodar.
Isto que eu estou a viver agora não é zero.
Isto é raiz. É chão batido pela dor, pela espera, pela queda, pela coragem de ficar quando doía… e pela coragem ainda maior de sair quando já não dava.
Chamam-lhe recomeço.
Mas eu chamo-lhe continuação com consciência.
Porque eu já não começo crua. Começo com cicatrizes que ensinam. Com limites que protegem. Com um coração que já sangrou demais para voltar a fingir que qualquer coisa basta.
Antes eu começava cheia de medo.
Hoje começo cheia de verdade.
Antes eu pedia licença.
Hoje eu escolho.
Antes eu sobrevivia.
Hoje eu quero viver, com tudo o que isso implica: o risco, a dúvida, o frio na barriga, mas também aquela chama boa no peito que diz: “Agora vai.”
E sabes o que é mais bonito nisto tudo?
É que ninguém faz ideia do preço que se paga por este tipo de começo.
Porque começar do lugar mais verdadeiro não é bonito de Instagram.
É cru. É solitário às vezes.
É perder apoio onde contavas. É ouvir menos aplausos e mais silêncios.
Mas é real.
E isso muda tudo.
Se estás a sentir que perdeste tudo… talvez só tenhas finalmente ficado contigo.
Se achas que estás no zero… talvez estejas, afinal, no único topo que importa: o da tua verdade.
Porque há recomeços que não são falência.
São libertação com nome próprio.
E hoje, se alguém me disser que estou a começar do zero, eu sorrio com respeito…
porque só eu sei o caminho que foi preciso andar para chegar exatamente aqui.
Nas grandes mudanças da vida, não estás a dizer “vou tentar”. Tentar ainda é negociar com o medo. Tentar ainda é deixar uma porta aberta para o recuo.
Tu estás a dizer “vou permitir-me”.
E permitir-se é um ato de coragem madura.
É assumir que mereces sem pedir desculpa, que podes sem te justificares, que queres sem te envergonhares.
Permitir-se não é insistir à força, é finalmente parar de se impedir. É passar da sobrevivência para a escolha. Da resistência para a entrega.
Do “um dia talvez” para o “ é agora”.
O coração disse “vai”. O resto foi só logística emocional.
Depois vêm as listas, os cafés frios, as noites mal dormidas, as mil abas abertas no cérebro, as contas feitas com calculadora e com fé, os “e se der errado?” às três da manhã, os “vai dar certo” ditos meio a tremer.
Vem o medo de mãos dadas com a coragem, como dois colegas de trabalho que não se suportam mas têm de colaborar. E no meio desse caos organizado, percebes uma coisa maravilhosa: não és tu que estás a perder o controlo, és tu que finalmente estás a sair do piloto automático. Vai dar trabalho? Vai. Vai dar medo? Também. Mas ficar onde já não cabias dava-te a vida inteira a perder.
E deixa-me dizer-te uma coisa com toda a sinceridade possível: ninguém fala da logística emocional que é mudar de vida. Parece que toda a gente acha que basta dizer “vou recomeçar” e puff, nasce uma versão iluminada de nós mesmas, pronta para vencer o mundo. Mentira.
Há todo um circo interior a acontecer: a ansiedade a fazer acrobacias, o medo a cuspir fogo, a coragem a tocar tambor, e nós no meio disto a tentar manter postura de “está tudo bem, sou adulta, sei o que estou a fazer”, enquanto por dentro estamos a googlar sinais de início de ataque cardíaco. Mas mesmo assim vamos.
Porque se esperamos sentir-nos 100% prontas… morremos estacionadas na vida.
Bárbara Pereira ✍️
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