Há uma fase da vida em que achamos que as pessoas falham connosco porque não deram o suficiente. Porque não foram como queríamos. Porque não corresponderam. Porque ficaram aquém. E durante muito tempo eu também olhei assim.
Até que um dia a vida me trouxe uma lucidez desconcertante: às vezes, a pessoa não falhou, às vezes… ela deu exatamente tudo o que tinha.
Nem sempre o outro está a ser pouco por escolha. Por vezes ele está a ser exatamente aquilo que consegue ser naquele momento.
E isso muda tudo.
Porque quando percebemos isto, deixamos de exigir maturidade de quem ainda está em alfabetização emocional. Deixamos de pedir profundidade a quem ainda vive em águas rasas. Deixamos de pedir amor consciente a quem ainda ama como conseguiu aprender.
Cada um dá o que tem.
Cada um ama com as ferramentas que tem. Cada um entrega a partir do lugar onde está, não do lugar onde nós já chegámos.
E não… isso não faz do outro uma má pessoa.
Faz dele apenas humano em processo e em aprendizagem.
E isto não é sobre sermos mais evoluídas, mais conscientes ou mais “curadas” do que ninguém. Não é um pódio emocional. É só sobre encaixe. Sobre direções que nem sempre seguem o mesmo mapa. Podemos até ter vivido coisas parecidas, ter dores semelhantes, ter raízes próximas, mas a forma como cada um aprende, amadurece, escolhe e segue é absolutamente única.
Às vezes ninguém falha. Simplesmente não dá para caminhar juntos. Não por falta de valor, mas por diferença de rumo. E isso também é uma forma de respeito.
O problema começa quando nós medimos o outro pela nossa régua: pela nossa consciência, pelos nossos valores, pela nossa história, pela nossa capacidade de ir mais fundo.
E esquecemo-nos de uma coisa essencial: nem toda a gente teve as mesmas oportunidades internas para crescer ao mesmo ritmo.
Mas atenção… aqui entra a parte importante da maturidade: há uma diferença brutal entre dar o pouco que se tem e agir com má fé, desrespeito e falta de carácter.
Há quem esteja estagnado por dor.
Há quem esteja estagnado por medo.
E há quem esteja estagnado porque simplesmente não quer assumir a responsabilidade de crescer.
E isso são coisas muito diferentes.
Por isso hoje eu já não digo tanto:
“Tu não foste suficiente para mim.”
Hoje eu digo com mais verdade:
“Talvez tu tenhas sido exatamente o que podias ser… só não era o que eu precisava para continuar.”
E isso não transforma ninguém num vilão.
Só transforma a história num cruzamento que não era para durar.
Porque há pessoas que dão tudo o que têm, e mesmo assim, ainda não é suficiente para caber na tua vida.
E está tudo certo.
Nem tudo o que é insuficiente é desamor.
Às vezes é só descompasso de consciência e de caminho.
Bárbara Pereira ✍️
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