Há pessoas que entram na nossa vida como uma bênção. Trazem amor, apoio, leveza, riso, cura. E depois… há outras. Outras que entram como se viessem diretamente do departamento espiritual dos “assuntos pendentes”.
Eu gosto de lhes chamar, com carinho e ligeiro trauma emocional: 'karma' de vidas passadas.
Não são necessariamente más pessoas.
Mas aparecem com uma missão muito específica: obrigar-nos a aprender à força aquilo que na teoria já sabíamos há anos.
São aquelas relações que começam com: “Não sei porquê, mas há aqui qualquer coisa estranha…”
E acabam com: “Ah… agora percebo tudo.”
Há pessoas que não vêm para ficar.
Vêm para:
– testar os nossos limites
– desafiar o nosso amor-próprio
– confrontar as nossas feridas
– e sobretudo… treinar a nossa capacidade de dizer “basta”.
A espiritualidade chama-lhes lições.
Eu, nos meus dias mais honestos, chamo-lhes: provas práticas de paciência com certificado de sobrevivência.
Porque convenhamos: há encontros que não parecem acaso nenhum. Parecem mais ajustes de contas emocionais do além.
Tipo: “Na outra vida deixaste isto pendente, agora toma lá outra vez, em versão intensiva.”
E nós lá vamos, todas espirituais, todas conscientes, a dizer: “Vou lidar melhor com isto desta vez.”
Mentira.
Primeiro choramos.
Depois tentamos salvar.
Depois tentamos explicar.
Depois tentamos compreender.
E só lá para o fim é que finalmente aprendemos.
Porque o karma não vem para nos castigar.
Vem para nos educar.
Há pessoas que são bênção.
E há pessoas que são professoras espirituais com mau feitio.
E o mais irónico de tudo? É que, quando a lição fica finalmente aprendida, elas desaparecem da nossa vida com uma naturalidade suspeita. Como quem diz: “Pronto, missão cumprida. Podes respirar.”
Hoje, quando alguém demasiado complicado entra na minha vida, eu já não entro logo em pânico.
Penso só: “Ok, universo… diz-me lá rápido o que é que eu ainda tenho de aprender com esta criatura, para não termos de repetir isto noutra encarnação.”
Porque uma coisa é certa: eu acredito em amor. Acredito em encontros de alma. Acredito em profissionais que se unem para melhorar e não para competir.
Mas acredito ainda mais que algumas pessoas não são romance, nem amizade, nem parceria. São exercícios espirituais avançados.
Cumprir pena não é ficar. É contar os dias até abrir a porta.
E isto aplica-se a tudo: família, trabalho, relações, amigos e até lugares onde já só estamos de figurantes na nossa própria vida.
Há pessoas que dizem “fico porque sou forte”, mas na verdade ficam porque já normalizaram o desconforto. Ficam por hábito, por culpa, por medo de parecer frias.
Ficam a cumprir calendário emocional como quem marca presença numa reunião que podia ter sido um e-mail. Mas quando começas a contar os dias em vez de viver os dias, já não estás por amor, estás por resistência mal distribuída. E sair, nesse caso, não é fuga. É a decisão elegante de quem já pagou tudo o que devia e não vai ficar a cumprir pena extra só para parecer madura.
Bárbara Pereira ✍️
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