Eu costumo fazer a minha árvore de Natal no dia 1 de Novembro. Sim, eu sei. É cedo. Mas eu sou assim. Antecipada na fé, no pisca-pisca e na esperança. Este ano só fiz hoje.
Aos 41 anos. Sim, posso oficialmente dizer: fiz a minha árvore aos 41.
Não, não foi um ritual de autoconhecimento profundo.
Só esperei que o espírito natalício tocasse em mim… Como vi que ele estava com atraso, puxei-o pelo casaco.
Porque aqui não se perde tempo.
E pronto. Fiz a árvore.
E é linda.
Não é porque é minha.
É porque é linda.
Porque não é só uma árvore com enfeites.
É o bonito que trago dentro espalhado pela casa.
É detalhe do que sou.
Do que faço na vida.
Do que escolho iluminar.
Basicamente, decoração com trauma tratado e luz própria.
Como boa pessoa de partilha, não de exposição, mas de colo e presença, tirei uma foto linda, instagramável até. Postei nos stories toda feliz.
Pim. Pim. Pim.
Dois segundos depois reparei nas fagulhinhas da árvore espalhadas pela carpete. Aquele lixo miudinho traiçoeiro.
O glitter da desilusão.
E apaguei logo.
Pensei:
“Não. Assim não. Isto tem de ser artístico. Isto tem de ser instagramável. Este lixo não compensa a exposição.”
Porque sofrimento sim, mas com estética.
Caos, só se for organizado.
E enquanto passava o aspirador, ocorreu-me isto com uma clareza quase incómoda: a vida, às vezes, pede exatamente a mesma coisa.
Há momentos em que não estamos feias por fora. Estamos é cheias por dentro.
Cheias de poeira emocional, restos de relações, migalhas de dores antigas, expectativas partidas, cansaços acumulados.
E então recolhemo-nos.
Não para desaparecer.
Mas para limpar.
Afastamo-nos para aspirar a alma.
Para tirar o que já não faz parte da decoração interior.
Então é assim: às vezes não nos mostramos.
Não porque não sejamos bonitas.
Não porque não brilhemos.
Mas porque estamos a limpar por dentro.
Estamos a aspirar restos de dores.
Farelos de histórias.
Pó de desilusões.
E migalhas de nós que já não nos servem.
Aquela sujidade emocional que insiste em aparecer quando finalmente está tudo lindo.
Não é fuga.
É manutenção.
É revisão técnica da alma.
Nem sempre é crise.
Às vezes é só higiene emocional.
Daquelas que ninguém vê, mas toda a gente devia fazer.
E depois voltamos.
Mais inteiras.
Mais luminosas.
Mais verdadeiras.
Sem lixo nos cantos da alma.
Sem pó emocional nos rodapés do coração.
Às vezes, não precisamos de nos mostrar enquanto nos estamos a reconstruir. Há momentos que são só nossos. Não por vergonha, não por fuga, mas por respeito à energia que a cura exige. Não é sobre esconder a nossa essência verdadeira. É sobre resguardá-la. É sobre guardar força, silêncio e tempo para nos refazermos por dentro, antes de voltarmos a viver o mundo, as pessoas, o fora.
Porque nem toda a luz precisa de plateia para ser real. Algumas precisam apenas de repousar para crescer.
É nesse tempo invisível que a alma se reorganiza, que o coração volta ao centro e que a fé reaprende a respirar. Só depois voltamos ao mundo, não para mostrar feridas, mas para transbordar da cura que se fez em segredo.
E no meio da árvore, dos enfeites e do aspirador ligado, há uma verdade pouco instagramável: há gente em modo “feliz natal” e há gente em modo “manutenção interna”.
E no meio da pressa para “parecer feliz”, há quem ligue as luzes da árvore por cima do caos só para ninguém ver o curto-circuito emocional.
Há quem decore a sala inteira para evitar decorar-se por dentro. Eu não. Eu desligo a música, ligo o aspirador e trato primeiro do pó emocional. Porque chamar-lhe Natal sem ter feito a limpeza é só marketing espiritual mal feito.
Não é drama. É lucidez natalícia. Porque antes do brilho vem sempre a limpeza… e quem salta essa parte acaba a acender luzes em cima da poeira.
Assinado:
Uma mulher real, aos 41, com árvore feita, aspirador ligado… e a essência intacta.
Porque brilho, eu tenho.
Só não gosto é de brilhinhos falsos e incomodos no tapete.
Bárbara Pereira ✍️ e o espírito Natalício limpo.
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