Hoje faço anos. E à meia-noite fiz o que qualquer Mulher Real responsável faz: abri um champanhe Raposeira doce reserva como se estivesse a inaugurar uma nova era da humanidade.
Sou capaz, e sublinho capaz, de ter bebido um copinho. Talvez dois. Não vou confirmar nem desmentir. A justiça que investigue.
O que posso confirmar é que eu tenho uma barreira muito fina entre 'estou animada' e o 'estou a ver a vida em 4K espiritual', o estranho caso de estar com muito álcool no sangue.
E ontem… atravessei essa linha com elegância duvidosa.
Estava eu feliz, leve, com aquela alegria que começa nos pés e vai subindo devagar até às ideias ficarem… criativas, quando me surgiu no peito uma dúvida existencial de altíssimo nível:
Porque é que o álcool tem álcool?
Sim.
Eu perguntei isto ao ChatGPT.
À meia-noite.
No meu aniversário.
Com um copo na mão.
Isto diz muito sobre mim. E nenhum psicólogo está preparado.
Reparem na grandeza da questão. A pessoa está a comemorar o seu aniversário. Já sente a alma a flutuar nos azulejos da cozinha.
Isto não é bebedeira.
Isto é filosofia líquida.
Mas a pergunta não era parva.
Era sincera.
Era do tipo: “Isto é tão bom… porque é que depois me deixa assim, meio tonta, meio fora do corpo, meio a ver a vida como um filme francês com legenda atrasada?”
Há qualquer coisa de profundamente bonita em fazer anos assim: entre a lucidez e a parvoíce, entre a maturidade e a tontura, entre o “já vivi tanto” e o “porque é que o álcool tem álcool?”.
E a verdade é esta: o álcool tem álcool porque a vida, muito raramente, nos deixa sentir alegria sem nos tirar um bocadinho do chão. É como se o universo dissesse:
“Podes rir, mas segura-te. Não te encostes demasiado à estabilidade.”
E eu achei isto profundamente simbólico.
Porque não é só o champanhe.
Há muitas coisas na vida que nos fazem leves… e desorientadas ao mesmo tempo.
O amor.
A coragem.
As grandes decisões.
Os recomeços.
Os saltos que damos com medo, mas também com uma fé estranhamente calma.
Tudo o que nos expande também nos desequilibra um bocadinho. E talvez isso seja o sinal mais honesto de que estamos vivas.
A certa altura, entre uma gargalhada e uma tontura existencial, percebi outra coisa: não foi o álcool que me deixou assim, eu que estava finalmente leve.
Depois de tanta contenção.
Tanta responsabilidade.
Tanta força a fingir que não cansa.
Ontem, por uns momentos, eu não fui a Mulher que aguenta. Fui só a Mulher que celebra.
Que ri sem pedir licença.
Que faz perguntas estúpidas e maravilhosas ao mesmo tempo.
A verdade é que eu não fiquei tonta do álcool. Fiquei tonta de me permitir.
Permitir-me não controlar tudo.
Permitir-me não ser a adulta responsável por uns minutos.
Permitir-me despedir de tudo que não deu certo.
Permitir-me celebrar a mulher que sobrevivi para ser.
No meio da noite, entre o brilho do copo e a luz serena da sala, pensei: quantas vezes na vida nos disseram que tínhamos de estar sempre sóbrias? Em tudo? No sentir, no decidir, no sonhar, no amar?
E ontem eu quebrei isso.
Com champanhe.
Com riso.
Com uma pergunta sem sentido que, no fundo, dizia tudo.
Talvez o álcool tenha álcool para nos lembrar que a vida também tem excessos.
E que, de vez em quando, precisamos deles para não enlouquecer de contenção.
E se ontem eu fiquei um bocadinho tonta…
foi só porque a vida, por uns minutos, deixou de pesar.
Hoje não fiz grandes balanços existenciais. Não escrevi listas de objetivos. Não fiz promessas ao universo.
Hoje eu só brindei. Sorri. Chorei emocionada. Ri-me de mim. E deixei-me estar num mundo à parte, esse mundo onde as perguntas não precisam de ter lógica para serem lindas.
E talvez seja isso fazer anos: permitirmo-nos, por umas horas, não perceber nada. E ainda assim… estar tudo certo.
E vou responder-te à incrível pergunta:
O álcool tem álcool porque… a natureza é marota. As leveduras, esses micro-seres do bem, quando comem o açúcar da uva, do trigo ou da cevada, fazem a digestão e libertam… etanol e bolhinhas de dióxido de carbono. Ou seja, o álcool é basicamente o suspiro químico das leveduras felizes. 😄
Brinda à vida, sempre. Porque a tontura depois passa, a alegria, essa fica sempre na memória da leveza de existir autêntica.
Bárbara Pereira ✍️
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