👸💗Cresci antes do tempo… e só agora percebo o preço disso.

Publicado em 1 de dezembro de 2025 às 11:44

Hoje encontrei uma fotografia. Julgo que é a única que tenho da minha infância. E, por algum motivo que não sei explicar, ela agarrou-me por dentro como se tivesse voz própria. Na foto está uma menina pequena, de franja muito séria, olhar grande e atento, roupa simples de quem não fazia ideia do mundo que ainda ia enfrentar.

Há qualquer coisa naquele olhar, qualquer coisa entre curiosidade e prudência, entre sonho e medo, que me fez parar.

Aquela menina não tinha filtros, nem memórias guardadas no telemóvel, nem poses treinadas. Só tinha aquilo que a vida lhe deu: um coração enorme e uma força que ainda não sabia que tinha.

E foi olhando para ela que me caiu uma verdade que até doeu: aquela menina ensinou-me tudo antes de eu aprender a sobreviver.

Ela ensinou-me a olhar o mundo com profundidade, mesmo quando o mundo não era bonito.

Ensinou-me a desconfiar do barulho e a confiar no silêncio. Ensinou-me que há dores que não se contam mas moldam.

Ensinou-me a observar antes de falar.

A sentir antes de reagir. A imaginar quando a realidade era pequena demais.

E ensinou-me, sobretudo, a resistir, sem nunca perder a doçura.

Há pessoas que crescem quando chega a idade. E depois há o outro tipo de pessoas, as que crescem porque a vida não lhes deu alternativa.

 

Eu não pedi maturidade precoce.

Não pedi força extra.

Não pedi para entender o mundo tão cedo.

 

Mas a vida, com aquele humor negro muito característico, disse: “Olha… não tenho aqui ninguém melhor. Vai tu."

E lá fui eu.

Cresci porque era preciso.

Cresci porque não havia quem me segurasse. Cresci porque alguém tinha de manter a alma inteira.

Cresci no improviso, no instinto, naquele modo de sobrevivência que só as mulheres reais conhecem.

 

Enquanto outras crianças viviam o “depois vejo”, eu vivia o “se eu não fizer, ninguém faz”.

 

E isso marca.

E isso molda.

E isso transforma-nos em adultas de aço… com coração de mel.

 

💛 O lado que ninguém vê:

 

Crescer antes do tempo não é dom.

É dor disfarçada de responsabilidade.

 

É aprender a ser forte sem ninguém para te ensinar. É educar-te a ti mesma enquanto pedias, em silêncio, que alguém te segurasse.

 

É seres o teu colo… quando ainda tinhas idade para precisar dele. Spoiler: ainda precisamos.

 

E, no meio disso tudo, acontece algo quase poético: ficas tão habituada a sobreviver que, quando finalmente tens paz, estranhas.

 

Quando alguém te trata bem, duvidas. Quando algo corre bem, esperas o desastre.

Porque cresceste a equilibrar mundos que não eram teus, e agora tens a mania de que tens de salvar tudo.

 

😏 Vamos pôr humor nisto, vá:

 

Eu cresci tão depressa que, se houvesse diploma para “adulta por obrigação”, eu tinha o mestrado, o doutoramento e dois módulos opcionais em "desenrascanso avançado”.

 

A vida não me deu o manual ou professores, mas deu-me o estágio prático antes da teoria.

Enquanto outras meninas aprendiam a fazer tranças, eu aprendia a fazer gestão emocional, minha e dos outros.

Enquanto outras dramatizavam porque a Barbie perdeu o sapato, eu dramatizava porque tinha perdido a noção de infância.

É rir para não chorar, certo? Ou chorar a rir, que também funciona.

 

🌿 A parte bonita desta história (sim, há sempre uma):

 

Cresci antes do tempo, sim.

Mas não fiquei amarga.

Não fiquei cínica.

Não perdi a capacidade de sentir, amar, sonhar.

 

Pelo contrário. Muito pelo contrário.

 

O que me faltou em colo, sobrou-me em coração. O que me faltou em guia, sobrou-me em intuição. O que me faltou em proteção, sobrou-me em coragem.

 

Eu aprendi sozinha, mas aprendi bem (creio eu).

E há uma coisa que ninguém diz sobre crescer demasiado cedo: é que a criança que fomos nunca desaparece, fica só à espera que finalmente alguém a veja, ouça, sinta e ame.

 

Fica à espera do abraço que não teve, da validação que merecia, do colo que pediu em silêncio.

 

E um dia, já adultas, no meio do caos, da força, das obrigações e da maturidade fabricada à pressa, percebemos que somos nós agora que temos de ir buscá-la.

 

Somos nós que a temos de sentar ao nosso lado, e dizer-lhe:

  “Eu sei que tiveste de ser forte cedo demais. Mas agora és minha. Agora sou eu que cuido de ti.”

 

Essa menina que ali está, tão firme e tão frágil ao mesmo tempo, não fazia ideia das quedas, das ausências, das cicatrizes e dos recomeços que o futuro lhe guardava.

Mas também não fazia ideia da mulher que ia nascer dela: uma mulher que ia usar a dor como tinta, a alma como bússola, e a escrita como salvação.

 

Hoje, enquanto olho para aquela fotografia, única, perdida, quase milagrosa, percebo que aquela menina não desapareceu.

 

E hoje percebo que aquela versão pequenina de mim, que segurou mundos maiores do que ela, foi a minha primeira grande mestra.

 

Porque, no fundo, tudo o que eu sou hoje, psicóloga, reikiana, escritora, mulher real, nasceu naquela menina de franja torta e olhos enormes.

 

A vida pode não ter tirado muitas fotografias. Mas tirou uma suficiente para me lembrar disto: a criança que fomos é sempre a raiz da mulher que somos.

 

E quando finalmente a reconhecemos,

a cura começa.

 

Bárbara Pereira ✍️ 

 

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