Hoje encontrei uma fotografia. Julgo que é a única que tenho da minha infância. E, por algum motivo que não sei explicar, ela agarrou-me por dentro como se tivesse voz própria. Na foto está uma menina pequena, de franja muito séria, olhar grande e atento, roupa simples de quem não fazia ideia do mundo que ainda ia enfrentar.
Há qualquer coisa naquele olhar, qualquer coisa entre curiosidade e prudência, entre sonho e medo, que me fez parar.
Aquela menina não tinha filtros, nem memórias guardadas no telemóvel, nem poses treinadas. Só tinha aquilo que a vida lhe deu: um coração enorme e uma força que ainda não sabia que tinha.
E foi olhando para ela que me caiu uma verdade que até doeu: aquela menina ensinou-me tudo antes de eu aprender a sobreviver.
Ela ensinou-me a olhar o mundo com profundidade, mesmo quando o mundo não era bonito.
Ensinou-me a desconfiar do barulho e a confiar no silêncio. Ensinou-me que há dores que não se contam mas moldam.
Ensinou-me a observar antes de falar.
A sentir antes de reagir. A imaginar quando a realidade era pequena demais.
E ensinou-me, sobretudo, a resistir, sem nunca perder a doçura.
Há pessoas que crescem quando chega a idade. E depois há o outro tipo de pessoas, as que crescem porque a vida não lhes deu alternativa.
Eu não pedi maturidade precoce.
Não pedi força extra.
Não pedi para entender o mundo tão cedo.
Mas a vida, com aquele humor negro muito característico, disse: “Olha… não tenho aqui ninguém melhor. Vai tu."
E lá fui eu.
Cresci porque era preciso.
Cresci porque não havia quem me segurasse. Cresci porque alguém tinha de manter a alma inteira.
Cresci no improviso, no instinto, naquele modo de sobrevivência que só as mulheres reais conhecem.
Enquanto outras crianças viviam o “depois vejo”, eu vivia o “se eu não fizer, ninguém faz”.
E isso marca.
E isso molda.
E isso transforma-nos em adultas de aço… com coração de mel.
💛 O lado que ninguém vê:
Crescer antes do tempo não é dom.
É dor disfarçada de responsabilidade.
É aprender a ser forte sem ninguém para te ensinar. É educar-te a ti mesma enquanto pedias, em silêncio, que alguém te segurasse.
É seres o teu colo… quando ainda tinhas idade para precisar dele. Spoiler: ainda precisamos.
E, no meio disso tudo, acontece algo quase poético: ficas tão habituada a sobreviver que, quando finalmente tens paz, estranhas.
Quando alguém te trata bem, duvidas. Quando algo corre bem, esperas o desastre.
Porque cresceste a equilibrar mundos que não eram teus, e agora tens a mania de que tens de salvar tudo.
😏 Vamos pôr humor nisto, vá:
Eu cresci tão depressa que, se houvesse diploma para “adulta por obrigação”, eu tinha o mestrado, o doutoramento e dois módulos opcionais em "desenrascanso avançado”.
A vida não me deu o manual ou professores, mas deu-me o estágio prático antes da teoria.
Enquanto outras meninas aprendiam a fazer tranças, eu aprendia a fazer gestão emocional, minha e dos outros.
Enquanto outras dramatizavam porque a Barbie perdeu o sapato, eu dramatizava porque tinha perdido a noção de infância.
É rir para não chorar, certo? Ou chorar a rir, que também funciona.
🌿 A parte bonita desta história (sim, há sempre uma):
Cresci antes do tempo, sim.
Mas não fiquei amarga.
Não fiquei cínica.
Não perdi a capacidade de sentir, amar, sonhar.
Pelo contrário. Muito pelo contrário.
O que me faltou em colo, sobrou-me em coração. O que me faltou em guia, sobrou-me em intuição. O que me faltou em proteção, sobrou-me em coragem.
Eu aprendi sozinha, mas aprendi bem (creio eu).
E há uma coisa que ninguém diz sobre crescer demasiado cedo: é que a criança que fomos nunca desaparece, fica só à espera que finalmente alguém a veja, ouça, sinta e ame.
Fica à espera do abraço que não teve, da validação que merecia, do colo que pediu em silêncio.
E um dia, já adultas, no meio do caos, da força, das obrigações e da maturidade fabricada à pressa, percebemos que somos nós agora que temos de ir buscá-la.
Somos nós que a temos de sentar ao nosso lado, e dizer-lhe:
“Eu sei que tiveste de ser forte cedo demais. Mas agora és minha. Agora sou eu que cuido de ti.”
Essa menina que ali está, tão firme e tão frágil ao mesmo tempo, não fazia ideia das quedas, das ausências, das cicatrizes e dos recomeços que o futuro lhe guardava.
Mas também não fazia ideia da mulher que ia nascer dela: uma mulher que ia usar a dor como tinta, a alma como bússola, e a escrita como salvação.
Hoje, enquanto olho para aquela fotografia, única, perdida, quase milagrosa, percebo que aquela menina não desapareceu.
E hoje percebo que aquela versão pequenina de mim, que segurou mundos maiores do que ela, foi a minha primeira grande mestra.
Porque, no fundo, tudo o que eu sou hoje, psicóloga, reikiana, escritora, mulher real, nasceu naquela menina de franja torta e olhos enormes.
A vida pode não ter tirado muitas fotografias. Mas tirou uma suficiente para me lembrar disto: a criança que fomos é sempre a raiz da mulher que somos.
E quando finalmente a reconhecemos,
a cura começa.
Bárbara Pereira ✍️
Deixa a tua estrela e ajuda a iluminar este espaço.
Adicionar comentário
Comentários