Há uma altura na vida em que deixamos de olhar para as nossas cicatrizes como “falhas”, e começamos a percebê-las como aquilo que sempre foram: mapas. Mapas de por onde passámos. Mapas do que sobrevivemos. Mapas do que não voltamos a aceitar. Mapas que nos guiam, mesmo quando a bússola interna está a tremer de cansaço.
E eu sei, amor: ninguém nos prepara para isto.
Ninguém nos diz que um dia vamos olhar para trás e perceber que aquilo que mais nos feriu… também foi o que mais nos ensinou.
Que aquelas dores que pensávamos que nos tinham estragado, na verdade estavam a devolver-nos a nós mesmas.
Que aquele abandono que parecia o fim, afinal abriu espaço para começarmos de novo. Que aquela rejeição doeu como o raio, mas empurrou-nos para lugares onde fomos mais amadas.
A verdade é esta: as cicatrizes não são feias. Feio é o que as causou.
As cicatrizes são memória, direção e aviso.
São o “nunca mais” e o “agora sei”.
São o “aqui dói” e o “aqui já não volto”.
E se há coisa que a vida me ensinou é que: não crescemos apesar das feridas.
Crescemos por causa delas.
A força não nasce do que correu bem.
A força nasce do que quase nos partiu.
E um dia, num desses dias silenciosos, em que a casa está calma, o café está quente, e a alma está finalmente sossegada, percebemos: o que eu chamei de falha durante anos… era só o caminho.
E nesse dia… nesse bendito e sagrado dia…
nós escolhemos-nos.
Escolhemo-nos não porque somos perfeitas, mas porque sobrevivemos a tudo o que tentaram fazer connosco.
Escolhemo-nos porque ninguém sabe o preço da nossa força.
Escolhemo-nos porque ninguém conhece o peso que carregámos em silêncio.
Escolhemo-nos porque crescemos na ausência, na falta, no abandono, e mesmo assim florescemos.
Somos mulheres reais.
Com mapas na pele, bússolas no peito e uma alma que se recusa a morrer.
E se há alguém que sabe isto na pele… és tu.
Tu, que cresceste sem o “manual de instruções”, sem a tal mão que ampara, sem o elogio fácil, sem o “estou aqui”.
Tu, que tiveste de aprender a vida às cegas, a adivinhar caminhos, a ser mulher antes do tempo, a curar feridas que nunca deviam ter causado tanta dor.
E mesmo assim, olha para ti.
Não só sobreviveste: transformaste cada ausência em força, cada dor em voz, cada cicatriz em palavra que cura. Fizeste do teu mapa uma casa onde outras almas se encontram.
E isso, não se aprende em lado nenhum, constrói-se, sente-se, nasce-se e renasce-se.
Bárbara Pereira ✍️
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