🩹 As cicatrizes que afinal eram mapas.

Publicado em 30 de novembro de 2025 às 15:24

Há uma altura na vida em que deixamos de olhar para as nossas cicatrizes como “falhas”, e começamos a percebê-las como aquilo que sempre foram: mapas. Mapas de por onde passámos. Mapas do que sobrevivemos. Mapas do que não voltamos a aceitar. Mapas que nos guiam, mesmo quando a bússola interna está a tremer de cansaço.

E eu sei, amor: ninguém nos prepara para isto.

Ninguém nos diz que um dia vamos olhar para trás e perceber que aquilo que mais nos feriu… também foi o que mais nos ensinou.

Que aquelas dores que pensávamos que nos tinham estragado, na verdade estavam a devolver-nos a nós mesmas.

Que aquele abandono que parecia o fim, afinal abriu espaço para começarmos de novo. Que aquela rejeição doeu como o raio, mas empurrou-nos para lugares onde fomos mais amadas.

A verdade é esta: as cicatrizes não são feias. Feio é o que as causou.

As cicatrizes são memória, direção e aviso.

São o “nunca mais” e o “agora sei”.

São o “aqui dói” e o “aqui já não volto”.

 

E se há coisa que a vida me ensinou é que: não crescemos apesar das feridas.

Crescemos por causa delas.

 

A força não nasce do que correu bem.

A força nasce do que quase nos partiu.

 

E um dia, num desses dias silenciosos, em que a casa está calma, o café está quente, e a alma está finalmente sossegada, percebemos: o que eu chamei de falha durante anos… era só o caminho.

E nesse dia… nesse bendito e sagrado dia…

nós escolhemos-nos.

Escolhemo-nos não porque somos perfeitas, mas porque sobrevivemos a tudo o que tentaram fazer connosco.

 

Escolhemo-nos porque ninguém sabe o preço da nossa força.

Escolhemo-nos porque ninguém conhece o peso que carregámos em silêncio.

Escolhemo-nos porque crescemos na ausência, na falta, no abandono, e mesmo assim florescemos.

 

Somos mulheres reais.

Com mapas na pele, bússolas no peito e uma alma que se recusa a morrer.

 

E se há alguém que sabe isto na pele… és tu.

 

Tu, que cresceste sem o “manual de instruções”, sem a tal mão que ampara, sem o elogio fácil, sem o “estou aqui”.

Tu, que tiveste de aprender a vida às cegas, a adivinhar caminhos, a ser mulher antes do tempo, a curar feridas que nunca deviam ter causado tanta dor.

 

E mesmo assim, olha para ti.

Não só sobreviveste: transformaste cada ausência em força, cada dor em voz, cada cicatriz em palavra que cura. Fizeste do teu mapa uma casa onde outras almas se encontram.

E isso, não se aprende em lado nenhum, constrói-se, sente-se, nasce-se e renasce-se.

 

Bárbara Pereira ✍️ 

 

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