Hoje, estava eu muito descansadinha da minha vida, a fazer as minhas tarefas domésticas, quando a televisão, aquele objeto que eu só ligo para fazer companhia ao silêncio, decidiu atirar-me para cima uma notícia do telejornal.
O telejornal, esse espetáculo diário de tragédias, polémicas, crimes aleatórios, políticos a prometer o que nunca vão cumprir e meteorologistas a falarem como se fossem deuses gregos do vento…
Enfim, o telejornal.
E ali, entre guerras, roubos, escândalos e o clássico “amanhã vai chover”, vem a notícia: “O pão e a pastelaria vão ficar mais caros.”
E eu só pensei:
É claro que sim. Como todos os anos. É tradição. Já devia vir no calendário litúrgico nacional.
Porque é sempre assim, religiosamente, entre o final de novembro e janeiro, o país inteiro recebe o mesmo recado espiritual:
“Bom dia, aumentámos tudo. Outra vez.”
E nós?
Nós fazemos o quê?
Respiramos fundo.
Engolimos o nó na garganta.
E lá vamos nós trabalhar mais, esforçar-nos mais, cansar-nos mais, para no fim… ficar exatamente no mesmo sítio.
💸 Não é o pão que aumenta. Somos nós que diminuímos.
O telejornal diz:
“O pão vai ficar mais caro.”
Eu ouço:
“A tua qualidade de vida acabou de levar mais um corte.”
Porque, sejamos honestas:
– o pão aumenta,
– a água aumenta,
– a luz aumenta,
– o gás aumenta,
– o combustível aumenta,
– as taxas aumentam,
– o supermercado aumenta,
– até o ar que respiramos deve estar a ser taxado enquanto falamos.
Mas o salário?
Ah, o salário fica sempre ali, firme, sólido, igualzinho, parado no tempo como um ex que se recusa a evoluir.
🧠 E o que fica realmente mais caro?
A nossa saúde mental.
Porque cada aumento significa mais horas de trabalho, mais pressão, mais exaustão, mais corre-corre, mais noites mal dormidas, mais medos escondidos, mais contas, mais sacrifícios, mais falta de tempo para nós.
A vida empurra, o sistema aperta, e nós ficamos ali, entre o stress e o milagre diário de sobreviver.
Às tantas, já não é o pão que custa caro.
É o privilégio de ter tempo, de ter calma, de ter descanso, de ter sanidade.
O pão aumenta.
A pastelaria aumenta.
E a nossa alma?
A nossa alma fica a sobreviver em prestações.
💸 E há outra coisa que ninguém comenta, mas toda a gente sente:
é que cada vez que o pão aumenta, o nosso tempo diminui.
Cada subida no preço das coisas rouba-nos minutos, horas, dias inteiros que deviam ser para viver, não para sobreviver.
É um troca-troca silencioso, quase perverso: tiram-nos descanso e vendem-nos “produtividade”; tiram-nos saúde mental e dizem-nos para fazer mindfulness; tiram-nos qualidade de vida e mandam-nos “ser resilientes”.
E nós?
Vamos aguentando.
Vamos fazendo contas com o coração nas mãos e a alma exausta no fim do mês.
Porque a verdade é crua e sem açúcar: não é o pão que pesa, é a vida que está pesada demais.
🍞 “Ai mas isso é o custo de vida.”
Não, amor.
Isso é o custo de viver num mundo que já não valoriza quem vive dentro dele.
É o custo de seres trabalhadora numa realidade que te suga até aos ossos.
É o custo de tentares ter uma vida digna num sistema que só te quer exausta, útil e silenciosa.
🌻 E então… qual é a solução?
A solução não é deixar de comer pão.
É deixar de normalizar um mundo que nos corta a alma por dentro.
A solução é continuarmos a cuidar de nós, mesmo que o mundo suba preços como quem muda de meias.
Porque, no fim, a única coisa que não pode falir… é a nossa saúde mental.
E esta sim é cara.
Caríssima.
Mas é também a única que vale a pena investir todos os dias.
Se a vida fosse honesta, dizia logo: "Aumentámos tudo, menos o teu salário. Beijinhos.”
O mundo aumenta tudo, menos o respeito pelo nosso esforço.
E ainda tem a coragem de chamar a isso ‘normalidade’.
Normal é tu continuares aqui, firme, apesar de tudo o que te pedem… e de tudo o que te tiram.
Bárbara Pereira ✍️
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