🌾🔥O pão aumenta. A paciência diminui.

Publicado em 2 de dezembro de 2025 às 14:02

Hoje, estava eu muito descansadinha da minha vida, a fazer as minhas tarefas domésticas, quando a televisão, aquele objeto que eu só ligo para fazer companhia ao silêncio, decidiu atirar-me para cima uma notícia do telejornal.

O telejornal, esse espetáculo diário de tragédias, polémicas, crimes aleatórios, políticos a prometer o que nunca vão cumprir e meteorologistas a falarem como se fossem deuses gregos do vento…

Enfim, o telejornal.

E ali, entre guerras, roubos, escândalos e o clássico “amanhã vai chover”, vem a notícia: “O pão e a pastelaria vão ficar mais caros.

 

E eu só pensei:

É claro que sim. Como todos os anos. É tradição. Já devia vir no calendário litúrgico nacional.

 

Porque é sempre assim, religiosamente, entre o final de novembro e janeiro, o país inteiro recebe o mesmo recado espiritual:

 “Bom dia, aumentámos tudo. Outra vez.”

E nós?

Nós fazemos o quê?

 

Respiramos fundo.

Engolimos o nó na garganta.

E lá vamos nós trabalhar mais, esforçar-nos mais, cansar-nos mais, para no fim… ficar exatamente no mesmo sítio.

 

💸 Não é o pão que aumenta. Somos nós que diminuímos.

 

O telejornal diz:

O pão vai ficar mais caro.”

 

Eu ouço:

A tua qualidade de vida acabou de levar mais um corte.”

 

Porque, sejamos honestas:

 

– o pão aumenta,

– a água aumenta,

– a luz aumenta,

– o gás aumenta,

– o combustível aumenta,

– as taxas aumentam,

– o supermercado aumenta,

– até o ar que respiramos deve estar a ser taxado enquanto falamos.

 

Mas o salário?

Ah, o salário fica sempre ali, firme, sólido, igualzinho, parado no tempo como um ex que se recusa a evoluir.

 

🧠 E o que fica realmente mais caro?

A nossa saúde mental.

Porque cada aumento significa mais horas de trabalho, mais pressão, mais exaustão, mais corre-corre, mais noites mal dormidas, mais medos escondidos, mais contas, mais sacrifícios, mais falta de tempo para nós.

A vida empurra, o sistema aperta, e nós ficamos ali, entre o stress e o milagre diário de sobreviver.

Às tantas, já não é o pão que custa caro.

É o privilégio de ter tempo, de ter calma, de ter descanso, de ter sanidade.

 

O pão aumenta.

A pastelaria aumenta.

E a nossa alma?

A nossa alma fica a sobreviver em prestações.

 

💸 E há outra coisa que ninguém comenta, mas toda a gente sente:

é que cada vez que o pão aumenta, o nosso tempo diminui.

Cada subida no preço das coisas rouba-nos minutos, horas, dias inteiros que deviam ser para viver, não para sobreviver.

 

É um troca-troca silencioso, quase perverso: tiram-nos descanso e vendem-nos “produtividade”; tiram-nos saúde mental e dizem-nos para fazer mindfulness; tiram-nos qualidade de vida e mandam-nos “ser resilientes”.

 

E nós?

Vamos aguentando.

Vamos fazendo contas com o coração nas mãos e a alma exausta no fim do mês.

Porque a verdade é crua e sem açúcar: não é o pão que pesa, é a vida que está pesada demais.

 

🍞 “Ai mas isso é o custo de vida.

 

Não, amor.

Isso é o custo de viver num mundo que já não valoriza quem vive dentro dele.

É o custo de seres trabalhadora numa realidade que te suga até aos ossos.

É o custo de tentares ter uma vida digna num sistema que só te quer exausta, útil e silenciosa.

 

🌻 E então… qual é a solução?

 

A solução não é deixar de comer pão.

É deixar de normalizar um mundo que nos corta a alma por dentro.

 

A solução é continuarmos a cuidar de nós, mesmo que o mundo suba preços como quem muda de meias.

 

Porque, no fim, a única coisa que não pode falir… é a nossa saúde mental.

E esta sim é cara.

Caríssima.

Mas é também a única que vale a pena investir todos os dias.

 

Se a vida fosse honesta, dizia logo: "Aumentámos tudo, menos o teu salário. Beijinhos.”

 

O mundo aumenta tudo, menos o respeito pelo nosso esforço.

E ainda tem a coragem de chamar a isso ‘normalidade’.

 

Normal é tu continuares aqui, firme, apesar de tudo o que te pedem… e de tudo o que te tiram.

 

Bárbara Pereira ✍️ 

 

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