🌞 Bom dia autoestima… Bom dia autoconfiança...ou talvez não

Publicado em 26 de novembro de 2025 às 22:25

Hoje de manhã, enquanto me vestia para ir trabalhar, deixei a televisão ligada naquele maravilhoso ritual nacional: os programas da manhã. Sim, aqueles especialistas que acordam cedo só para nos lembrar tudo aquilo que já devíamos ter resolvido antes das 8h. 🙃 Entre receitas de panquecas saudáveis, conselhos amorosos de pessoas divorciadas três vezes e astrologia feita à pressa, veio a cereja no topo do bolo: “A autoconfiança vem do que os nossos pais nos passam.”

Eu não sei se o “especialista” acabou a frase, porque dentro da minha cabeça só consegui ouvir uma sirene:

ESTOU F*DIDA.

(Aos mais sensíveis, desculpem a linguagem)

E não foi com raiva, nem drama, foi apenas uma constatação matemática. Se a autoconfiança depende da base familiar, e a minha base parecia uma mesa de três pernas… então, sim, à partida a minha autoestima não vem de fábrica. Veio em peças, sem manual de instruções.

 

Confesso: quando ele disse que a autoconfiança vem da educação dos pais, só me deu vontade de pedir para repetir, mas devagar, para eu perceber em que momento da minha vida é que isso devia ter acontecido. Procurei no arquivo da minha memória e… nada. Nem backup. Nem ficheiro corrompido. Se a autoconfiança vem de casa, a minha deve ter ficado com a vizinha.

 

Mas calma: não estou aqui a culpar pai e mãe por tudo. Até porque não é culpa, é ferida. Há quem herde património. Há quem herde memórias. Eu herdei silêncio, sobrevivência e o talento de me educar sozinha.

E, ironicamente, foi isso que me construiu.

 

📌 Porque, quando o “lugar seguro” não é a tua casa, aprendes a ser casa de ti própria.

Quando ninguém te ampara, tornas-te o teu próprio abraço.

Quando não te deram permissão para existir, aprendes a existir com força dobrada.

 

Não é bonitinho. Não é poético.

É duro.

É solitário.

É um trabalho psicológico sem férias, sem subsídio de Natal e sem manual de parentalidade interna.

 

Mas também é poderoso.

Porque quem aprende a amar-se a partir da falta, não ama por hábito.

Ama por escolha.

Não confia porque foi educada a confiar.

Confia porque reconstruiu o direito a confiar.

 

Crescer sem colo faz-nos fortes… mas não por escolha.

É força de sobrevivência.

De quem aprende a levantar-se sozinha, a amar-se sozinha, a segurar o mundo sozinha, enquanto o resto do mundo ainda está a aprender a pedir colo quando precisa.

Não sei se isso nos faz especiais. Mas sei que nos faz cansadas.

 

E enquanto o especialista falava da autoestima que vem de berço, eu pensei: há quem nasça com asas, e há quem precise construir as suas com os pedaços que restaram da queda.

 

Eu tive de ser mãe da minha coragem.

Pai da minha confiança.

A irmã mais velha da minha criança ferida.

A terapeuta da minha própria alma.

 

E se isso não é autoconfiança… então não sei o que é.

 

É engraçado: crescemos sozinhas e os outros acham-nos “independentes”.

Não somos independentes. Somos pessoas que aprenderam a não pedir nada.

Porque ninguém vinha.

 

E hoje chamam a isso “resiliência”.

Eu chamo de “criança que cresceu depressa demais”.

E então chega a vida adulta e percebemos que não fomos só filhas: fomos educadores de nós mesmas.

Tivemos de ensinar ao nosso corpo o que é segurança, à nossa mente o que é respeito, e ao nosso coração o que é amor, sem ter visto isso ser praticado.

 

Não aprendemos com o exemplo.

Tivemos de ser o exemplo.

 

Bárbara Pereira ✍️ 

 

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Comentários

Luis Rodrigues
2 meses atrás

Parabéns por este excelente texto.
Sem dúvida do melhor que li.
Muitas verdades.