Hoje de manhã, enquanto me vestia para ir trabalhar, deixei a televisão ligada naquele maravilhoso ritual nacional: os programas da manhã. Sim, aqueles especialistas que acordam cedo só para nos lembrar tudo aquilo que já devíamos ter resolvido antes das 8h. 🙃 Entre receitas de panquecas saudáveis, conselhos amorosos de pessoas divorciadas três vezes e astrologia feita à pressa, veio a cereja no topo do bolo: “A autoconfiança vem do que os nossos pais nos passam.”
Eu não sei se o “especialista” acabou a frase, porque dentro da minha cabeça só consegui ouvir uma sirene:
ESTOU F*DIDA.
(Aos mais sensíveis, desculpem a linguagem)
E não foi com raiva, nem drama, foi apenas uma constatação matemática. Se a autoconfiança depende da base familiar, e a minha base parecia uma mesa de três pernas… então, sim, à partida a minha autoestima não vem de fábrica. Veio em peças, sem manual de instruções.
Confesso: quando ele disse que a autoconfiança vem da educação dos pais, só me deu vontade de pedir para repetir, mas devagar, para eu perceber em que momento da minha vida é que isso devia ter acontecido. Procurei no arquivo da minha memória e… nada. Nem backup. Nem ficheiro corrompido. Se a autoconfiança vem de casa, a minha deve ter ficado com a vizinha.
Mas calma: não estou aqui a culpar pai e mãe por tudo. Até porque não é culpa, é ferida. Há quem herde património. Há quem herde memórias. Eu herdei silêncio, sobrevivência e o talento de me educar sozinha.
E, ironicamente, foi isso que me construiu.
📌 Porque, quando o “lugar seguro” não é a tua casa, aprendes a ser casa de ti própria.
Quando ninguém te ampara, tornas-te o teu próprio abraço.
Quando não te deram permissão para existir, aprendes a existir com força dobrada.
Não é bonitinho. Não é poético.
É duro.
É solitário.
É um trabalho psicológico sem férias, sem subsídio de Natal e sem manual de parentalidade interna.
Mas também é poderoso.
Porque quem aprende a amar-se a partir da falta, não ama por hábito.
Ama por escolha.
Não confia porque foi educada a confiar.
Confia porque reconstruiu o direito a confiar.
Crescer sem colo faz-nos fortes… mas não por escolha.
É força de sobrevivência.
De quem aprende a levantar-se sozinha, a amar-se sozinha, a segurar o mundo sozinha, enquanto o resto do mundo ainda está a aprender a pedir colo quando precisa.
Não sei se isso nos faz especiais. Mas sei que nos faz cansadas.
E enquanto o especialista falava da autoestima que vem de berço, eu pensei: há quem nasça com asas, e há quem precise construir as suas com os pedaços que restaram da queda.
Eu tive de ser mãe da minha coragem.
Pai da minha confiança.
A irmã mais velha da minha criança ferida.
A terapeuta da minha própria alma.
E se isso não é autoconfiança… então não sei o que é.
É engraçado: crescemos sozinhas e os outros acham-nos “independentes”.
Não somos independentes. Somos pessoas que aprenderam a não pedir nada.
Porque ninguém vinha.
E hoje chamam a isso “resiliência”.
Eu chamo de “criança que cresceu depressa demais”.
E então chega a vida adulta e percebemos que não fomos só filhas: fomos educadores de nós mesmas.
Tivemos de ensinar ao nosso corpo o que é segurança, à nossa mente o que é respeito, e ao nosso coração o que é amor, sem ter visto isso ser praticado.
Não aprendemos com o exemplo.
Tivemos de ser o exemplo.
Bárbara Pereira ✍️
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Comentários
Parabéns por este excelente texto.
Sem dúvida do melhor que li.
Muitas verdades.