Nem sempre estás perdida. Às vezes estás só a nascer noutra versão de ti.

Publicado em 6 de dezembro de 2025 às 14:13

Ao longo da vida, vamos vestindo papéis.

Filha.

Mulher forte.

Profissional.

Cuidadora.

A que aguenta.

A que resolve.

A que não falha.

 

E durante muito tempo esses papéis dão-nos chão. Dão-nos sobretudo identidade.

Dão-nos um lugar.

 

Até que a vida muda.

 

Muda um trabalho.

Muda uma relação.

Muda um ciclo.

Muda a forma como te vês ao espelho e a forma como vês os outros e até, o mundo. 

 

E, de repente, aquilo que eras já não te serve… mas aquilo que estás a tornar-te ainda não se sente confortável.

 

É aí que nasce a confusão.

O medo.

A insegurança.

A tristeza estranha que não sabes explicar.

 

Não é fracasso.

É transição de identidade.

 

🧠 A identidade segundo a psicologia

 

Na psicologia, a identidade não é algo fixo.

Ela constrói-se, desconstrói-se e reconstrói-se ao longo da vida. É formada pelas experiências, pelos vínculos, pelas dores, pelas escolhas e pelos contextos onde crescemos.

 

Durante muito tempo, a nossa identidade organiza-se em torno do que foi preciso para sobreviver: ser forte, ser útil, ser a que aguenta, ser a que não falha, ser a que cuida. Esses papéis não surgem por acaso.

São respostas adaptativas ao que a vida exigiu de nós num determinado momento.

 

O 'problema' começa quando a vida muda, mas a identidade fica presa ao passado.

O cérebro entra em conflito interno: uma parte quer avançar, outra quer permanecer no que conhece. E é aí que surge a sensação de vazio, confusão, medo e até culpa por já não sermos “quem éramos”.

 

A psicologia chama a isto crise de identidade ou transição identitária.

Não é patologia. É um processo natural de crescimento emocional e psicológico.

 

Nesta fase, a pessoa sente-se “sem chão” porque o velho já caiu, mas o novo ainda não ganhou forma.

 

É por isso que muitas pessoas, em grandes mudanças de vida, sentem: “Já não sou quem era, mas ainda não sei quem sou.”

 

E isso assusta.

Mas também é exatamente aqui que nasce a autenticidade.

 

A identidade saudável não é aquela que nunca muda. É aquela que tem coragem de se rever, de se atualizar e de largar versões que já cumpriram a sua função.

 

A crise de identidade:

 

A crise de identidade não acontece porque algo está “errado” contigo mas, porque já não consegues continuar a ser quem foste para sobreviver.

 

Na psicologia, a crise de identidade surge quando a forma como te vias, os papéis que desempenhavas e a versão que sustentavas deixam de fazer sentido. E isso pode acontecer depois de perdas, mudanças de vida, burnout, ruturas, maternidade, divórcios, mudanças de carreira, curas profundas ou até despertar espiritual.

 

De repente, deixas de te reconhecer: já não sabes bem o que gostas. Já não te identificas com as mesmas pessoas.

O que antes era prioridade, agora pesa.

O que antes te definia, agora aperta.

 

E isso assusta. E muito. 

 

Porque a crise de identidade não é só confusão. É luto. Luto pela versão de ti que morreu para que outra possa nascer.

 

🧠 O que a psicologia ensina:

 

A identidade constrói-se em camadas.

Primeiro para agradar.

Depois para sobreviver.

Depois para funcionar.

E só mais tarde, com coragem, para ser verdadeira.

 

Quando a alma começa a pedir verdade, o ego entra em 'pânico'. Porque a verdade obriga-te a largar personagens que já ninguém te pediu para representar, mas que tu continuaste a carregar por hábito, medo ou necessidade de pertença.

 

A crise de identidade não é fraqueza.

É crescimento a doer.

 

É o conflito entre quem aprendeste a ser e quem estás pronta para te permitir ser.

 

 Por isso, na crise…

 

– Sentes-te perdida

– Questionas tudo

– Duvidas das tuas escolhas

– Sentes o vazio

– Tens medo de não voltar a ser “alguém”

 

Mas na verdade estás a tornar-te alguém mais tua. A crise de identidade não é perder, é reconstruir por dentro. 

 

✨ A cura:

 

A crise passa quando deixas de te exigir respostas rápidas. Quando aceitas o intervalo e, entendes que não tens de saber já quem vais ser. Só tens de respeitar quem já não és e todo o caminho percorrido até aqui. 

 

🌿 O luto da identidade antiga

 

Pouco se fala disto, mas mudar também dói. Mesmo quando a mudança é necessária. Mesmo quando é desejada.

Mesmo quando é libertadora.

 

Há um luto silencioso por:

 

• Quem tu foste

• Pela versão que conhecias

• Pela zona de conforto emocional

• Pela identidade que te dava segurança

 

E esse luto pode vir disfarçado de tristeza, medo ou vazio.

 

Não porque estás a regredir.

Mas porque estás a desapegar-te da pele antiga.

 

🌱 O nascimento da nova identidade:

 

A nova versão de ti não chega confiante.

Chega desajeitada.

Chega insegura.

Chega em teste.

 

Como uma criança a aprender a andar.

 

Ela erra.

Ela cai.

Ela duvida.

Ela chora.

 

Mas ela cresce.

 

O medo que sentes muitas vezes não é sinal de erro. É sinal de expansão.

 

✨ Reflexão

 

• Estás perdida ou estás em transformação?

• O medo que sentes é fraqueza ou é crescimento?

• Estás a tentar voltar a quem eras… ou a dar espaço a quem estás a tornar-te?

 

Nem toda a confusão é sinal de erro.

Às vezes é só o preço de não te abandonares mais.

 

Bárbara Pereira

Psicóloga por vocação, terapeuta por alma 🤍✨

 

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