Ao longo da vida, vamos vestindo papéis.
Filha.
Mulher forte.
Profissional.
Cuidadora.
A que aguenta.
A que resolve.
A que não falha.
E durante muito tempo esses papéis dão-nos chão. Dão-nos sobretudo identidade.
Dão-nos um lugar.
Até que a vida muda.
Muda um trabalho.
Muda uma relação.
Muda um ciclo.
Muda a forma como te vês ao espelho e a forma como vês os outros e até, o mundo.
E, de repente, aquilo que eras já não te serve… mas aquilo que estás a tornar-te ainda não se sente confortável.
É aí que nasce a confusão.
O medo.
A insegurança.
A tristeza estranha que não sabes explicar.
Não é fracasso.
É transição de identidade.
🧠 A identidade segundo a psicologia
Na psicologia, a identidade não é algo fixo.
Ela constrói-se, desconstrói-se e reconstrói-se ao longo da vida. É formada pelas experiências, pelos vínculos, pelas dores, pelas escolhas e pelos contextos onde crescemos.
Durante muito tempo, a nossa identidade organiza-se em torno do que foi preciso para sobreviver: ser forte, ser útil, ser a que aguenta, ser a que não falha, ser a que cuida. Esses papéis não surgem por acaso.
São respostas adaptativas ao que a vida exigiu de nós num determinado momento.
O 'problema' começa quando a vida muda, mas a identidade fica presa ao passado.
O cérebro entra em conflito interno: uma parte quer avançar, outra quer permanecer no que conhece. E é aí que surge a sensação de vazio, confusão, medo e até culpa por já não sermos “quem éramos”.
A psicologia chama a isto crise de identidade ou transição identitária.
Não é patologia. É um processo natural de crescimento emocional e psicológico.
Nesta fase, a pessoa sente-se “sem chão” porque o velho já caiu, mas o novo ainda não ganhou forma.
É por isso que muitas pessoas, em grandes mudanças de vida, sentem: “Já não sou quem era, mas ainda não sei quem sou.”
E isso assusta.
Mas também é exatamente aqui que nasce a autenticidade.
A identidade saudável não é aquela que nunca muda. É aquela que tem coragem de se rever, de se atualizar e de largar versões que já cumpriram a sua função.
A crise de identidade:
A crise de identidade não acontece porque algo está “errado” contigo mas, porque já não consegues continuar a ser quem foste para sobreviver.
Na psicologia, a crise de identidade surge quando a forma como te vias, os papéis que desempenhavas e a versão que sustentavas deixam de fazer sentido. E isso pode acontecer depois de perdas, mudanças de vida, burnout, ruturas, maternidade, divórcios, mudanças de carreira, curas profundas ou até despertar espiritual.
De repente, deixas de te reconhecer: já não sabes bem o que gostas. Já não te identificas com as mesmas pessoas.
O que antes era prioridade, agora pesa.
O que antes te definia, agora aperta.
E isso assusta. E muito.
Porque a crise de identidade não é só confusão. É luto. Luto pela versão de ti que morreu para que outra possa nascer.
🧠 O que a psicologia ensina:
A identidade constrói-se em camadas.
Primeiro para agradar.
Depois para sobreviver.
Depois para funcionar.
E só mais tarde, com coragem, para ser verdadeira.
Quando a alma começa a pedir verdade, o ego entra em 'pânico'. Porque a verdade obriga-te a largar personagens que já ninguém te pediu para representar, mas que tu continuaste a carregar por hábito, medo ou necessidade de pertença.
A crise de identidade não é fraqueza.
É crescimento a doer.
É o conflito entre quem aprendeste a ser e quem estás pronta para te permitir ser.
Por isso, na crise…
– Sentes-te perdida
– Questionas tudo
– Duvidas das tuas escolhas
– Sentes o vazio
– Tens medo de não voltar a ser “alguém”
Mas na verdade estás a tornar-te alguém mais tua. A crise de identidade não é perder, é reconstruir por dentro.
✨ A cura:
A crise passa quando deixas de te exigir respostas rápidas. Quando aceitas o intervalo e, entendes que não tens de saber já quem vais ser. Só tens de respeitar quem já não és e todo o caminho percorrido até aqui.
🌿 O luto da identidade antiga
Pouco se fala disto, mas mudar também dói. Mesmo quando a mudança é necessária. Mesmo quando é desejada.
Mesmo quando é libertadora.
Há um luto silencioso por:
• Quem tu foste
• Pela versão que conhecias
• Pela zona de conforto emocional
• Pela identidade que te dava segurança
E esse luto pode vir disfarçado de tristeza, medo ou vazio.
Não porque estás a regredir.
Mas porque estás a desapegar-te da pele antiga.
🌱 O nascimento da nova identidade:
A nova versão de ti não chega confiante.
Chega desajeitada.
Chega insegura.
Chega em teste.
Como uma criança a aprender a andar.
Ela erra.
Ela cai.
Ela duvida.
Ela chora.
Mas ela cresce.
O medo que sentes muitas vezes não é sinal de erro. É sinal de expansão.
✨ Reflexão
• Estás perdida ou estás em transformação?
• O medo que sentes é fraqueza ou é crescimento?
• Estás a tentar voltar a quem eras… ou a dar espaço a quem estás a tornar-te?
Nem toda a confusão é sinal de erro.
Às vezes é só o preço de não te abandonares mais.
Bárbara Pereira
Psicóloga por vocação, terapeuta por alma 🤍✨
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